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Equidade Racial dá coerência à atuação de organizações sociais

Autor: Cristina Souza Data da postagem: 13:30 06/10/2021 Visualizacões: 194
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Equidade Racial dá coerência à atuação de organizações sociais/Imagem: Nappy

A nota técnica Gestão estratégica para equidade racial elaborada pelo advogado Daniel Teixeira, diretor executivo do CEERT, tem como objetivo apoiar as organizações de investimento social a implementar práticas alinhadas ao discurso de justiça social que orienta suas ações programáticas.

A nota técnica faz parte da série de publicações do GIFE - Grupo de Institutos, Fundações e Empresas - para debater conceitos, oferecer orientações técnicas sobre questões relevantes e práticas do campo da filantropia e do investimento social privado (ISP). A série é voltada para os gestores, equipes das organizações e demais atores envolvidos nessas temáticas.

“Atuar da porta para fora de maneira alinhada à forma de agir para dentro”, assim Viviane Soranso explica de maneira simples a importância da equidade racial na estratégia institucional da Fundação Tide Setubal, onde atua como coordenadora do Programa Raça e Gênero. A fundação é uma das mobilizadoras da Rede Temática de Equidade Racial do Gife - associação dos investidores sociais do Brasil, que reúne mais de 160 organizações como fundações e institutos de investimento social privado (ISP) que somam investimentos da ordem de R$ 2,9 bilhões por ano.

Considerando que o racismo estrutura historicamente a matriz de desigualdades sociais no Brasil, a equidade racial é uma premissa fundamental para organizações voltadas para a promoção da justiça social. No entanto, o advogado Daniel Teixeira aponta na nota técnica que as organizações de ISP ainda têm muito a avançar neste sentido.

“De fato temos necessidade de avanço em instituições que trabalham para o desenvolvimento social, direitos humanos e interesse público em geral, seja na conscientização sobre equidade racial, seja no avanço de iniciativas concretas como práticas e políticas que apontam para uma cultura organizacional mais equitativa", diz ele.

Diversidade no quadro de colaboradores e lideranças

Daniel acredita que as empresas estão um pouco mais adiantadas neste processo por pressão da população negra por mais representatividade nos cargos de liderança destas que são as maiores empregadoras do país. “Porém as organizações de investimento social privado também precisam desses avanços, mesmo com equipes não tão numerosas como das empresas.”

Viviane Soranso conta como está o quadro de diversidade de raça e gênero na Fundação Tide Setubal. A equipe conta, atualmente, com 26 profissionais. Desse total, 65,4% declararam sexo feminino ao nascer e 34,6%, masculino. Com relação à identificação, 65,4% identificam-se como mulher, 30,8%, como homem e 3,8%, como travesti. No âmbito racial, dos 26 integrantes, 50% autodeclaram-se brancos e outros 50%, negros (desses, 38,5% declaram-se pretos e 11,5%, pardos). Essa premissa é estendida aos cargos de liderança: dos 10 coordenadores, 6 são mulheres e 4, homens (60% e 40%, respectivamente), ao passo que a proporção racial nesses cargos é equivalente - 50% são negros e 50%, brancos.

“Para reforçar a importância da diversidade no desenvolvimento de programas e projetos, a Fundação conta desde 2020 com o Comitê de Diversidade e Inclusão, composto por colaboradores de diferentes níveis hierárquicos e estratégias operacionais, incluindo a mim, que estou na Fundação desde o início em 2006.” explica Viviane.  

ESG, atuação coletiva e transparência

Segundo Daniel, essa diversidade é fundamental para termos outros olhares nas posições de tomada de decisão e para fora das instituições pensando no impacto social do seu trabalho. É no impacto social das organizações que se insere o debate sobre ESG [Environmental, Sustainability and Governance], sigla em inglês para ‘meio ambiente, sustentabilidade e governança’.

O diretor do CEERT cita o pensamento de intelectuais como Nancy Fraser, filósofa contemporânea americana e outros, que relaciona justiça social com o reconhecimento da diversidade de grupos que compõem a sociedade em posições de poder e de tomada de decisão nas organizações, como são os conselhos deliberativos e diretoria.   

Uma de suas recomendações na nota técnica é que o instituto, fundação ou empresa, faça parte de coletivos de organizações que atuam para a promoção da equidade racial nos diversos setores, por exemplo, a Coalizão Empresarial para Equidade Racial e de Gênero, iniciativa do CEERT com o Instituto Ethos e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e a Rede Temática de Equidade Racial do GIFE, na qual a Fundação Tide Setubal é uma das organizações mobilizadoras.

A nota técnica também destaca a implementação de iniciativas nacionais ou internacionais de accountability para que a organização tenha métricas e reporte à sociedade sobre seus avanços. Mais que compromisso, é uma medida de transparência.

“Infelizmente há o 'racial washing'; assim como o termo ‘greenwashing’ designa empresas que dizem que defendem o meio ambiente, mas é só de fachada, também temos o ‘racial washing' para quem promove equidade racial de fachada somente” explica Daniel, afirmando que quando a organização participa de instâncias nacionais e internacionais que geram accountability, ou seja, prestação de contas publicamente, ela comunica à sociedade os avanços efetivos da organização.

“Trata-se de um bom marketing com lastro na realidade. Sabemos que as transformações não são feitas da noite para o dia porque são séculos de racismo institucional e discriminação racial. Mas quando você participa dessas instâncias você estabelece metas e métricas o que contribui para o avanço efetivo” conclui.

A iniciativa Equidade é Prioridade: Étnico Racial, liderada pelo CEERT em parceria com o Pacto Global das Nações Unidas é um exemplo de accountability internacional. Trata-se de uma iniciativa pioneira para promover o avanço das políticas e práticas de equidade racial, com foco na liderança institucional. Daniel acredita que “fazer parte desse tipo de iniciativa assegura à organização um reconhecimento da sociedade que vem demandando cada vez mais que as instituições sejam antirracistas e, mais que discursos, implementem ações efetivas de equidade racial.” 

Conheça a metodologia de promoção de equidade racial em organizações públicas, privadas e da sociedade civil, desenvolvida em mais de três décadas de atuação do CEERT, no site Diversidade Corporativa.

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