Programa Prosseguir 2ª Edição

conheça

Omissões da imprensa reforçam o mito da democracia racial

Autor: Rodrigo Galdino Data da postagem: 17:30 15/04/2013 Visualizacões: 1699
Curta a nóticia:
Curta o CEERT:
Pesquisa do Ministério da Saúde comprova que os jovens negros são os maiores vítimas da violência no Brasil.

Uma cobertura que omite fatores diretamente relacionados às desigualdades raciais no Brasil e que privilegia um discurso contrário aos mecanismos de enfrentamento do racismo. É a conclusão que se chega a partir da análise das 101 páginas da mais completa pesquisa sobre mídia e racismo, divulgada no final de 2012, pela ANDI - Comunicação e Direitos. Intitulado “Imprensa e Racismo: uma análise das tendências de cobertura jornalística”, o relatório analisou 1.602 notícias envolvendo a temática, publicadas em 45 jornais impressos das diversas regiões do país, entre 2007 e 2010. Antes da exposição dos números, vale ressaltar a definição de racismo adotada pela ANDI. Para a entidade, trata-se do “fenômeno de discriminação negativa contra determinados indivíduos ou grupamentos humanos, que é operado e manifestado de diferentes maneiras”. Dessa forma, o racismo pode ser individual, quando praticado por determinado indivíduo contra uma pessoa ou grupo de pessoas; ou institucional, quando se refere à prática de determinadas instituições, que dificutam ou impedem o acesso de grupos raciais ou étnicos a determinados serviços e benefícios. “Está suficientemente demonstrada a contribuição do campo simbólico na (re)construção do racismo – o que inclui o universo da comunicação midiática em geral e, especificamente, do jornalismo”, destaca a introdução do relatório da ANDI. Ou seja, ao ignorar os percentuais que comprovam a maior incidência de violência física contra os negros brasileiros, por exemplo, a mídia contribui para operacionalizar ou legitimar a dominação de grupamentos humanos sobre outros - a chamada violência simbólica, definida pelo sociólogo Pierre Bourdieu. Os números comprovam Uma das principais conclusões da pesquisa da ANDI é a clara desvinculação entre as violências físicas praticadas contra a população negra e o debate sobre o racismo. Ou seja, o discurso majoritário (83%) das reportagens analisadas pela pesquisa ignora a violência física praticada contra negros. Entretanto, dados do Sistema de Informações de Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, comprovam que a maioria dos homicidios que ocorrem no país atinge jovens negros: em 2010, 50% das vítimas tinha entre 15 e 29 anos; destas, 75% eram negras.A pesquisa da ANDI concluiu ainda que indicadores que comprovam a permanência da população negra em posições socioeconômicas desfavoráveis em relação aos não-negros foram praticamente ignorados pelos jornais analisados. Segundo o estudo, menos da metade dos textos (47,5%) sobre mercado de trabalho menciona a questão da desigualdade salarial entre negros e outras populações. Além disso, 97,1% dos textos jornalísticos analisados ignoram o dado de que crianças e adolescentes negros possuem oportunidades reduzidas em comparação às demais crianças. Essa tendência comprova a omissão de importantes dados destacados em estudos de entidades como o IBGE. Segundo o censo 2010, os rendimentos médios mensais dos brancos é quase o dobro do valor pago aos negros. Além disso, a PNAD 2009 destaca que do total de 530 mil crianças de 7 a 14 anos que estavam fora da escola, 62,0% eram negras. Na pesquisa da ANDI, também é grande (84,7%) o número de textos que não explicita a classe social dos atores mencionados; o que comprova uma omissão preocupante, já que, segundo o IBGE, a população pobre do Brasil é majoritariamente negra (70,8%). Democracia racial? Para Suzana Varjão, gerente de qualificação da ANDI e coordenadora do estudo, os dados indicados na pesquisa não deixam de ter relação com o mito da democracia racial: “Mas esta vinculação não é linear, direta, discursiva”. Segundo ela, “os mecanismos midiáticos desfavoráveis aos negros estão situados menos no plano discursivo tradicional e mais em práticas ordinárias”. Ainda segundo a pesquisadora, “jornalistas que deixam de registrar a cor da pele das pessoas assassinadas não o fazem por acreditarem – ou não – na igualdade racial, mas por operarem, de modo acrítico e automatizado, esse tipo de dispositivo, construído e mantido pelos macro poderes econômicos”. O pesquisador e cineasta Joel Zito Araújo, diretor do documentário “A negação do Brasil”, é mais direto nas colocações. Segundo ele, a mídia e a escola brasileira são os maiores cultores do mito da democracia racial. “Esse mito virou uma espécie de tábua sagrada, que não pode ser contestada. Embora a elite brasileira seja de direita, neste momento eles gostam de afirmar que o nosso problema é social e não racial. Assim como, diante da pressão por cotas para jovens negros na universidade, eles vieram com a ideia de cotas sociais. Ou seja, existe um enorme esforço ideológico para negar o racismo brasileiro, para defender a ideologia do branqueamento e o mito da democracia racial”, afirma o cineasta. A professora Adenilde Petrina Bispo (), moradora do bairro Santa Cândida, periferia leste de Juiz de Fora, Minas Gerais, compartilha da mesma opinião de Zito. Integrante dos movimentos sociais e líder da extinta rádio comunitária Mega FM, ela se reúne com frequência com jovens moradores da comunidade para discutir a atuação da mídia no Brasil. “Eu tenho certeza que a mídia contribui muito para a perpetuação e às vezes até para o aumento do racismo no Brasil, hoje em dia. A mídia tem muita responsabilidade nisso tudo”, acredita. A negação do racismo A pesquisa da ANDI revelou ainda que, apesar de 35,1% das matérias analisadas admitir a existência da prática do racismo, a maioria do conteúdo opinativo publicado nestes jornais é contrário a mecanismos para seu enfrentamento, como o sistema de cotas para negros, o que expõe o caráter ideológico do debate. Segundo a ANDI, surpreende a alta presença dos chamados conteúdos opinativos (artigos, editoriais, cartas de leitores, enquetes, entrevistas, colunas/notas assinadas) nos textos analisados. De acordo com o levantamento, 32% de toda a cobertura dedicada ao tema do racismo se dá sob esse formato. E, nos editoriais, 58% dos textos analisados expõe opinião contrária ao sistema de cotas. Segundo Joel Zito Araújo (), “o que existe é uma campanha orquestrada. Muito articulistas brancos se promoveram e galgaram postos importantes na mídia ao se tornarem defensores fiéis contra qualquer proposta de política de ação afirmativa que buscasse desmontar a nossa profunda desigualdade racial”. De acordo com o cineasta, um dos fatos que mais o impressionou foi quando Ali Kamel, atual editor chefe do jornalismo da Globo, teve o seu livro “Não somos racistas” adotado pelo exército brasileiro. Ainda segundo Joel Zito, “a mídia revela de forma cristalina quem é o subalterno e quem é o poder no país. Quem é considerado feio e quem é considerado bonito. Quem tem direito ao reino dos céus (à vida confortável e luxuosa, aos planos de saúde, aos carros de luxo nos comerciais de TV e no mundo das telenovelas) e quem não tem”. A professora Adenide Petrina tem opinião semelhante: “a questão da visão do negro, na mídia, parte da formação racista que a elite tem; uma elite retrógrada, conservadora, preconceituosa, que discrimina; eles ainda não saíram da ‘casa grande’ e acreditam que nós todos, negros, pobres, ainda estamos na senzala”.Outras omissões A pesquisa divulgada pela ANDI mostra ainda outras omissões da imprensa com relação à temática negra. Apenas 2,1% das notícias analisadas tem como foco o ensino de história da África, institucionalizado a partir da Lei 10.639/2003; 1,6% das matérias retrata a saúde da população negra e as relações entre raça/etnia e gênero são abordada em apenas 1,1% dos casos. Ou seja, as matérias sobre estas temáticas tendem, mais uma vez, a serem descontextualizadas, não permitindo assim a compreensão real dos fatos pelos leitores. Avaliada a partir do método conhecido como Análise de Conteúdo (que permite quantificar as características dos materiais veiculados, de forma objetiva e sistemática), a pesquisa da ANDI demonstra alguns avanços, como a qualidade técnica presente em 73,9% dos texttos analisados. Durante o período analisado, o Jornal A Tarde, de Salvador, Bahia, foi o que mais publicou matérias relacionadas ao racismo; 210 textos no total. O Valor Econômico, de circulação nacional, foi o que menos abordou a temática - 19 textos, o que equivale a 1,2% do total da amostra. Segundo a pesquisadora da ANDI, Suzana Varjão (), a expectativa da entidade é de que o movimento social, especialmente o Movimento Negro, se aproprie do estudo, pois ele foi coordenado pela ANDI, mas foi construído pelo Movimento Negro. De acordo com a pesquisadora, a entidade “não tem expectativa de difusão [da pesquisa] na chamada grande mídia, porque é uma análise crítica dessa esfera, que não gosta de se discutir publicamente”. Prova disso é que apenas 2,4% dos textos analisados na pesquisa tratam da relação entre mídia e racismo. Fonte: VIVA FAVELA

Curta a nóticia:
Curta o CEERT:

Fonte:

Categoria: Outros

Tags: #Outros