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Opinião: Somos todos humanos

Autor: Hédio Silva Jr Data da postagem: 15:53 29/04/2014 Visualizacões: 2655
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A reação do jogador Daniel Alves, do Barcelona, ao comer uma banana arremessada por um torcedor do Villarreal durante partida do Campeonato Espanhol no último domingo, provocou uma comoção internacional e deflagrou reações as mais diversas da imprensa, de autoridades, das redes sociais.

Com bom humor e irreverência, Daniel Alves expressou sua indignação diante de uma manifestação racista que, segundo revelou, o persegue desde que mudou-se para a Europa. Horas depois do ocorrido o Villarreal informava ter identificado e punido o autor do ato racista, cassando seu carnê de sócio e proibindo seu acesso ao estádio El Madrigal em caráter definitivo.

O jogador Neymar, que há algumas semanas foi vítima de ato racista semelhante, solidarizou-se com seu colega de time, publicou fotografia dele próprio saboreando uma banana e, segundo consta, teria lançado uma campanha contra o racismo intitulada "Somos Todos Macacos".

A ação exemplar do Villarreal ao reprimir severamente o torcedor deve servir de modelo para nosso país: a despeito das medidas preventivas e repressivas previstas no Estatuto do Torcedor e na Lei Geral da Copa, também por aqui os episódios de insultos racistas nos estádios de futebol crescem a olho nu.

Tenho dúvidas, entretanto, sobre a eficácia de campanhas supostamente direcionadas contra o racismo mas que terminam por legitimar, ainda que de modo irreverente, a ideia de que seres humanos podem ser equiparados a animais.

Humanos são tratados como humanos. Animais, ainda que não devam ser maltratados, certamente não merecem o mesmo tratamento dispensado aos humanos.

O Código Comercial brasileiro, instituído em 1850 e parcialmente revogado em 2002, qualificava os africanos escravizados como semoventes, como animais. A propaganda nazista equiparava judeus a ratos.

A violência verbal, simbólica, a redução do outro à condição animal não se limita ao plano discursivo, ao xingamento, à palavra aparentemente inofensiva. Ela serve como justificativa e autorização para a violência física, sanguinária, genocida.

O núcleo duro da ideologia racista assenta-se exatamente na falácia da hierarquização entre seres humanos; diferenças fenotípicas, de aparência, de atributos físicos resultariam em diferenças intelectuais e morais.

Episódios como o insulto ao lateral Daniel Alves devem servir, tal como previsto no Estatuto do Torcedor, para mobilizar governos, confederações, federações, ligas, clubes, entidades esportivas, torcedores, sociedade e indivíduos em torno de uma agenda positiva, capaz de assegurar a prevenção e não apenas a repressão da violência nos esportes.

Ação preventiva requer atuação cotidiana, permanente, norteada para as causas do racismo e não apenas para seus efeitos. Um exemplo simples mas emblemático cabe perfeitamente nesta quadra: até hoje nossas crianças não aprendem nas escolas a razão pela qual negros e brancos têm diferentes tipos de pele, de cabelo, de formato de nariz, etc. Trata-se de conhecimento que a genética disponibiliza há séculos mas que ainda não aportou no currículo escolar. Enquanto diferença for associada à inferioridade, o racismo vai continuar se manifestando nos estádios e no dia a dia dos brasileiros.

Somos todos seres humanos: essa deve ser nossa resposta ao racismo!



** Dr. Hédio Silva Jr., é advogado, doutor em direito pela PUC-SP e diretor executivo do CEERT.

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