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Como jovens se mobilizam pelo clima no Brasil e no mundo

Autor: Juliana Domingos de Lima Data da postagem: 12:00 04/09/2019 Visualizacões: 419
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JOVENS NO RIO DE JANEIRO EM PROTESTO DA GREVE MUNDIAL PELO CLIMA, EM 2019 / Imagem: Reprodução - Nexo

Estudantes brasileiros participaram de duas greves mundiais em defesa do meio ambiente em 2019 e foram às ruas pela Amazônia.

Na quarta-feira (28), a ativista sueca Greta Thunberg, de 16 anos, desembarcou em Nova York, nos Estados Unidos, para participar de uma conferência sobre o clima na ONU (Organização das Nações Unidas). Acompanhada de seu pai, Thunberg passou duas semanas cruzando o Atlântico em um veleiro sustentável, que não lançou emissões de carbono.

A jovem se tornou o rosto conhecido da Juventude pelo Clima, grupo internacional que reivindica que os governos ajam para combater a mudança climática. Em agosto de 2018, Thunberg boicotou suas aulas em uma sexta-feira para fazer um protesto solitário diante do parlamento em Estocolmo, na Suécia, onde ergueu um cartaz com a frase “greve estudantil pelo clima”. A ação deu origem ao “Fridays for Future” (sextas-feiras pelo futuro), um movimento que conquistou adeptos em todo o mundo e que denuncia a falta de ação a respeito da crise climática.

O primeiro protesto de Thunberg acabou se prolongando por três semanas seguidas, e atraiu atenção por meio de posts no Instagram e no Twitter. Com isso, ela pôde espalhar suas ideias e articular novos protestos e ações pelo clima com mais estudantes.

Movimento vai além de Thunberg

Em março de 2019, a Juventude pelo Clima liderou uma greve mundial (#strikeforclimate) de estudantes pelo combate das mudanças climáticas. Articulada nas ruas e nas redes sociais, a greve teve apoiadores em cerca de cem países, incluindo o Brasil. Em maio, o grupo organizou um segundo protesto global contra a mudança climática.

As iniciativas fazem parte de uma tendência recente e mundial de jovens que têm se mobilizado em torno de grandes temas sociais de longo prazo, como a crise do clima.

Para as crianças e jovens do grupo, a pauta é urgente porque o avanço do aquecimento global está “roubando o futuro” das novas gerações, ameaçado pela iminência de desastres naturais e conflitos sociais ainda mais intensos, nas palavras de Thunberg.

“Há um caráter pedagógico nos movimentos protagonizados pelos jovens que nos alertam de que é preciso respirar para além do imediato”, disse Denise de Sordi, doutora em história social e pesquisadora na área de experiências e processos sociais na Universidade Federal de Uberlândia, ao Nexo em março de 2019.

Ela afirmou ainda que a mobilização segue uma tendência e que, ao longo do século 20, foram vários os atos com pautas ambientais protagonizados pela juventude.

Jovens mobilizados pela pauta ambiental no Brasil

Com a escalada dos focos de queimada na Amazônia em agosto de 2019, manifestantes foram às ruas de diversas cidades brasileiras em defesa da floresta em 23 de agosto e durante o fim de semana. Em São Paulo, o ato ocorreu na Avenida Paulista e era composto por uma maioria de pessoas jovens, segundo o portal G1.

Muitos desses atos tiveram participação de jovens do Fridays for Future Brasil, movimento inspirado no ativismo de Greta Thunberg que conta com integrantes em todas as regiões do país. Criados por um jovem de Juazeiro do Norte (CE), um perfil no Instagram e um grupo no Whatsapp deram início à versão nacional da mobilização.

Em março de 2019, os ecos da “Greve pelo clima” se fizeram presentes no país, com manifestações em dezenas de cidades e participação de algumas escolas.

“Foi tudo muito rápido, porque o grupo lotou bem rapidamente. Em apenas quatro ou cinco dias conseguimos mobilizar 24 cidades pelo país”, disse ao Nexo Nayara Almeida, 21 anos, estudante de ciências biológicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro e uma das organizadoras do Fridays for Future Brasil. Ela estima que o movimento conte hoje com cerca de mil jovens.

“Nos organizamos através de reuniões online e redes sociais, em que  compartilhamos o que estamos fazendo nas nossas cidades, nossas ações e aprendizados”, diz a estudante. Em várias cidades, eles vão às ruas nas sextas-feiras e falam com as pessoas sobre a pauta ambiental, tentando aproximá-las do tema. Segundo Almeida, o grupo também tem tentado ocupar espaços da política institucional, comparecendo a audiências públicas para falar da pauta climática, conversando com políticos e participando de conselhos municipais. 

Almeida conta que, antes do movimento, ela não tinha tido outras experiências efetivas de engajamento político, “por sentir que a política era um espaço opressor, como se por ser jovem, pobre e sem títulos grandiosos — como um mestrado, um cargo alto — eu não pudesse fazer nada”, disse. “A Greta me inspira muito e me fez pensar que eu podia sim, com gestos simples, gerar grandes mudanças”.

Ao Nexo Rosana Nazzari, pós-doutora em educação pela Unisinos e doutora e mestre em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, afirmou que os jovens têm criado espontaneamente formas de dar visibilidade à pauta ambiental, “demonstrando habilidade em reinventar as demandas ambientais e promover novas metodologias de ação”.

“As questões ambientais marcam a agenda mundial pós-materialista. Ao longo das últimas décadas, os jovens dos países desenvolvidos sempre se mobilizaram pelas questões ecológicas. Os jovens brasileiros vem se somar ao movimento mundial”, afirma Nazzari. “Vislumbro um movimento forte e promissor de ampliação da cidadania por meio dos movimentos de defesa ao meio ambiente. Uma virada da juventude na busca de modelos sociais, colaborativos e sustentáveis. A urgência do controle dos impactos ambientais está vinculada à juventude”.

Embora venha crescendo, o Fridays for Future Brasil ainda enfrenta dificuldades para mobilizar mais jovens para que eles participem dos protestos semanais que o movimento propõe.

Para a estudante Nayara Almeida, muitos jovens precisam lidar com problemas básicos no dia a dia, o que dificulta a conexão com a luta pelo meio ambiente. “Vivemos numa sociedade com muita desigualdade social (e também ambiental), racismo, machismo e violência [que estão] de forma muito evidente no dia a dia de muitos jovens”, afirmou.

“Além disso, a disseminação de educação climática do nosso país é escassa. Como alguém vai lutar por algo que não teve a oportunidade de ser informado?”, questiona.

A experiência secundarista

Para a historiadora Denise de Sordi, a “primavera secundarista”por melhorias na educação que aconteceu a partir de 2015 em vários estados brasileiros reconfigurou as formas de organização dos jovens vistas no país até então. As ocupações eram horizontais, com deliberações feitas em assembleia e responsabilidades compartilhadas entre os estudantes.

Ao tratar de mobilizações protagonizadas por jovens no Brasil a partir de 2015, segundo ela, não é mais possível relacioná-las automaticamente ao movimento estudantil em sua forma histórica e institucionalizada.

O movimento secundarista de 2015 nasceu da ocupação de escolas durante meses em São Paulo, quando os estudantes se posicionaram contra uma proposta de reorganização da área da educação do ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB). Em 2016, a proposta de reforma do ensino médio do ex-presidente Michel Temer motivou ações do mesmo tipo em outros estados brasileiros, como o Paraná, onde 300 unidades escolares foram tomadas por estudantes. Na época, Alckmin revogou a reorganização, mas Temer aprovou a reforma.

Em fevereiro de 2019, o 4º Encontro Nacional de Grêmios da Ubes (União Brasileira dos Estudantes Secundaristas, realizado em Salvador, teve como temas a saúde e o meio ambiente.

“Esse é um aspecto que chama atenção nos atuais movimentos políticos protagonizados por jovens, por seu poder em contestar um ideal de juventude que está diretamente relacionado a relações de poder paternalistas e antidemocráticas”, disse de Sordi. “No contexto das mobilizações pelo clima, é possível apontar que esse ideal também é colocado em xeque, na medida em que os jovens se posicionam em questões para as quais não seriam chamados a arbitrar.”


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