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Como movimentos negros denunciam violência policial e sensibilizam a sociedade

Autor: Antonio Carlos Quinto Data da postagem: 17:00 28/05/2021 Visualizacões: 221
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Ilustração: Cleber Siquette/Reprodução: Jornal da USP

Sociólogo constata que há uma “gramática negra” que vem evidenciando o racismo e a violência policial contra a população negra

Nos últimos anos, as lutas e as mobilizações dos movimentos negros contra a violência do Estado, principalmente a policial, vêm se radicalizando e se fortalecendo a ponto de chamar a atenção e sensibilizar a sociedade para acontecimentos que poderiam passar despercebidos. No estudo de doutorado intitulado Gramática Negra contra a violência de Estado: da discriminação racial ao genocídio negro (1978-2018), o sociólogo Paulo César Ramos mostra como o movimento negro, em quatro décadas, tematizou a violência policial.

Com base na análise de documentos políticos encontrados em acervos privados, fornecidos por lideranças dos movimentos negros, e entrevistas pessoais, Ramos reconstituiu alguns casos emblemáticos de violência policial que ganharam a atenção das organizações negras, da mídia e da política institucional. O sociólogo também deu atenção especial à recorrência de termos e expressões que aludissem ao problema em panfletos, cartazes, manifestos e relatórios. O trabalho foi construído, principalmente, a partir da reconstrução dos protestos em casos emblemáticos de violência policial e as análises permitiram ao pesquisador identificar o que ele denomina “pontes semânticas”. “É a partir dessas ‘pontes’ que o movimento então se organiza na luta”, descreve. Assim, ele estabeleceu três períodos de protestos: a discriminação racial (1978-1988), a violência racial (1989-2006) e o genocídio negro (2007-2018).

Os casos Floyd e João Alberto

Para uma melhor compreensão do sentido de “ponte semântica”, Ramos cita, por exemplo, o caso de George Floyd, nos EUA, assassinado por um policial, em maio de 2020, e a morte de João Alberto Silveira Freitas, em novembro do mesmo ano, aqui no Brasil, causada por agressões de seguranças de um supermercado na cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Ambos serviram de “mote”, segundo o sociólogo, para as reações do movimento negro no Brasil. Nos EUA ressurgiu o slogan Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), que, cerca de seis meses depois, foi bastante veiculado também por aqui, nos protestos contra a morte de João Alberto.

Além do exemplo citado, outras “pontes semânticas” foram identificadas na pesquisa. “Lá pelos anos 1980, a ideia de discriminação racial sintetizou a experiência de violação de toda uma coletividade”, descreve o pesquisador. Dois anos antes, Robson Silveira da Luz, um homem negro de 21 anos, foi torturado num distrito policial de São Paulo e encaminhado a um hospital, onde veio a falecer alguns dias depois. A reação foi o estopim, inclusive, para a criação do Movimento Negro Unificado (MNU). “Esse acontecimento levou o movimento negro a reagir contra o racismo usando a palavra de ordem ‘contra a discriminação racial’, que foi a bandeira de luta naquela oportunidade”, lembra.

Num segundo período, que na pesquisa se situa entre os anos de 1989 e 2006, as bandeiras de luta foram contra a violência racial. As reações do movimento negro foram então contra a violência policial cometida contra as pessoas negras. “Esse tema foi pauta frequente nas agendas do movimento negro”, lembra o sociólogo, destacando que um dos casos foi o do jovem Marcelo de Jesus, morto por policiais numa estação do Metrô de São Paulo. “Além deste, houve outros casos, de maior ou menor visibilidade”, afirma Ramos. Mas um deles é citado por Ramos como “emblemático”. Foi o assassinato do dentista Flávio Ferreira Sant’Ana, de 28 anos, morto por policiais na zona norte de São Paulo em 2004. “Devemos lembrar que ele não tinha o que a polícia considerava publicamente como o estereótipo de um negro suspeito. Estava bem vestido, dirigia seu automóvel e havia acabado de se formar em Odontologia. Além disso, seu pai era um PM aposentado”, conta. Para o sociólogo, ali se deu uma espécie de “quebra de acordo”, ou seja, caía o mito de uma democracia racial.

Já a bandeira do genocídio foi identificada por Ramos entre os anos 2007 e 2018. Mas, segundo o pesquisador, por conta de tantos acontecimentos, ela permanece até os dias atuais. Afinal, levantamentos apontaram que 70% de negros eram vítimas de homicídios e a população jovem representava mais de 50% dos mortos.

Debate ampliado

Ramos conta que em 2005 o movimento negro e suas bandeiras se depararam com alguns conflitos internos, principalmente de parte dos mais jovens. “O que para muitos podia ser considerado um ‘racha’ no movimento, pode ser visto de forma positiva. Afinal, isso ampliava e liberava os atores para atuar em múltiplos espaços”, analisa. Naquele ano houve duas marchas em homenagem a Zumbi dos Palmares.

Para o sociólogo, esses três momentos identificados em seu estudo mostram que o movimento negro “subiu o tom da denúncia, numa ascendente de radicalização”. “É possível identificar uma continuidade que parte da denúncia de um mito da democracia e a tentativa de ser incluídos no processo de democratização, até o anúncio de quebra de uma espécie de pacto”, observa Ramos. Ele explica que o pacto da democracia racial pregou que brancos, negros e índios vivem em harmonia. Afinal, há setores da sociedade que consideram não haver racismo, mas sim um problema de classes. Mas a pesquisa evidencia que os crimes que o movimento negro sempre denunciou ficaram explícitos.

Através de entrevistas e análises de documentos, Ramos também chegou às entidades, como a Uneafro (2000/2010) CONEM – Coordenação Nacional de Entidades Negras, e Unegro – União de Negros pela Igualdade. “A agenda de minha pesquisa começa em 2010, quando estudei o Conselho Nacional de Juventude e reconstituí os passos do Encontro Nacional de Juventude Negra em 2007”, explica o sociólogo.

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