"Não há democracia enquanto essa resposta não chegar'", diz viúva de Marielle

Autor: Mariana Franco Ramos Data da postagem: 19:00 12/04/2019 Visualizacões: 333
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"Não há democracia enquanto essa resposta não chegar'", diz viúva de Marielle/Imagem: Reprodução - Folha de Londrina

 Arquiteta e ativista, Mônica Benício (centro) participou de debate na UFPR sobre desafios da democracia 

Curitiba – A arquiteta e ativista de direitos humanos Mônica Benício, viúva da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ), critica, em entrevista exclusiva à FOLHA, o que ela considera falta de posicionamento do governo Jair Bolsonaro (PSL-RJ) em relação ao genocídio da população negra e à violência cotidiana que acomete mulheres e LGBTs [sigla utilizada para se referir a lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais]. “É lamentável que a gente ainda precise ver essas notícias que são tristes, que são dramáticas, que falam muito inclusive sobre o que é a realidade do Brasil”, diz.

Mônica conversou com a reportagem pouco antes de participar, na noite dessa segunda-feira (8), de uma conferência sobre os desafios da democracia, em Curitiba. Um dia antes de ser executada no exercício de seu mandato, em 14 de março de 2018, Marielle havia perguntado, no Twitter: “quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?” Ela se referia ao jovem Matheus Melo de Castro, de 23 anos, baleado em Manguinhos, na zona norte do Rio de Janeiro. No último domingo (7), também no Rio, o músico Evaldo dos Santos Rosa levava a família para um chá de bebê, quando militares dispararam mais de 80 tiros contra seu carro. Ambos eram negros.

“Essas figuras, que estão aí nos espaços de poder e que deveriam representar os interesses do povo, deveriam se colocar, sobretudo em nota de solidariedade às famílias, amigos e a toda a sociedade, e assumindo um comprometimento de construir um país onde essas ações não se repitam. Lamentavelmente não é a realidade, nem parece ser o comprometimento do atual governo. Isso porque [ele] legisla para uma classe que não é nem elite; é privilegiada, fala em seus próprios interesses e nada tem a ver com o povo brasileiro”, opina a ativista.

SOCIEDADE DEMOCRÁTICA

Para ela, mais do que nunca é preciso que todos contribuam com a construção de uma sociedade democrática, justa e igualitária. “Na minha avaliação, num regime democrático a gente deveria ter uma politica de segurança pública que fosse efetivamente construída e endereçada à maior parte da população. E aí a gente está falando da maior parte da população ser negra, pobre, de mulheres, e esse governo não tem a menor representatividade em cima desses corpos, os corpos que lutam por resistência diariamente”.

Sobre os 390 dias [392 nessa quarta] do assassinato da vereadora, Mônica Benício fala que esperava no mínimo um comprometimento público, que fosse de repercussão internacional, do Estado brasileiro com a solução e a resposta. “Não há democracia enquanto essa resposta não chegar. Marielle era uma vereadora democraticamente eleita e foi executada no exercício da sua função (…). A elucidação desse caso não passa só por entregar quem foi que puxou o gatilho e quem estava dirigindo, mas sobretudo quem foi que articulou isso, porque certamente é uma pessoa que se julga tão poderosa e tem certeza da impunidade”.

Urbanista e mestranda em Arquitetura, a viúva de Marielle acabou ganhando projeção até internacional ao assumir a agenda de defesa de minorias. “Não é uma tarefa fácil, nem é fluido fazer isso. A resistência vem acompanhada de muita solidariedade, empatia e um carinho absurdo que recebo de várias pessoas, seja por redes sociais, seja nos abraços na rua. Sem dúvida nenhuma é o que me mantém na luta. Lutar pela preservação da memória da Marielle e ser essa ativista que hoje tem visibilidade pública, tanto falando do feminismo como da população LGBT, vem com muita responsabilidade, mas é o que faz a vida ter algum sentido”, relata.

LEGITIMIDADE

Mônica é lésbica e, assim como a ex-companheira, “cria” da favela da Maré. Questionada se teria legitimidade para falar também sobre a população negra, representada por Marielle, a ativista recorre a uma fala da estilista brasileira Zuzu Angel, mãe do ex-remador do Flamengo Stuart Angel Jones, que foi torturado e assassinado durante a ditadura militar. “Quando alguém a chamava de corajosa, ela dizia: meu filho tinha coragem. Eu tenho legitimidade. Faço das palavras de Zuzu as minhas”.

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