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Flip discute o racismo americano e brasileiro

Autor: Redação Estadão Data da postagem: 12:00 11/12/2020 Visualizacões: 251
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Flip discute o racismo americano e brasileiro/ Imagem: Reprodução

Na mesa que reuniu a escritora norte-americana Regina Porter e o brasileiro Jeferson Tenório na edição virtual da Flip, neste domingo, 6, às 16h, com mediação do jornalista Guilherme Henrique, o tema não poderia ser outro, o da subjetividade negada às pessoas negras. No livro de Regina Porter, Os Viajantes, são muitos os personagens reduzidos a estereótipos, vítimas da violência racial. Quando um branco encontra um negro em seu livro, é conflito na certa. Em O Avesso da Pele, isso também acontece. Em seu terceiro romance, Jeferson Tenório narra a história de Pedro, um jovem que conta a saga do pai, professor de literatura, morto numa trágica abordagem policial em Porto Alegre.

Tenório, carioca, nasceu em 1977 e fixou residência em Porto Alegre. Segundo ele, não foi só a névoa do porto nada alegre da capital que fez a diferença. Percebeu que o Brasil é racista, sim, e que o Sul não é uma exceção geográfica. A tomada de consciência da negritude de Pedro, o protagonista de O Avesso da Pele, foi um pouco a sua, a de reaver sua subjetividade perdida. “Aqui, a subjetividade é mediada pela cor da pele, e meus personagens fazem parte de uma geração que toma essa consciência muito lentamente”, disse o autor na conversa com Regina Porter, que citou um caso parecido nos EUA.

“A Natalie Cole não sabia que era negra até entrar na universidade”, contou Porter, referindo-se à filha do cantor e pianista de jazz Nat King Cole.

“Alguns estudos mostram que os afro-americanos tomam consciência da raça aos oito anos, mas parece que, no de Natalie, ela veio bem mais tarde”. Por vezes, a realidade é tão insuportável que a criação de um mito surge como uma alternativa viável – e não deve ter sido por acaso que o pai de Natalie gravou Nature Boy, a clássica canção de Eden Ahbez, em que o garoto “diferente” só espera ser amado e conseguir amar alguém, mesmo que seja o antípoda.

“Quando escrevo, não sei se o personagem é negro ou branco, até descobrir sua raça num clique”, revelou Regina Porter. Jeferson Tenório certamente gostaria que fosse assim também com ele, mas o Brasil, ao contrário do que dizem os governantes, consegue ser tão ou mais racista que os EUA. “Eu não queria ter escrito um livro tão próximo da realidade, mas num país em que os negros são descartados – Marielle Franco morreu há mais de mil dias e ninguém ainda descobriu quem mandou matar -, tive de pensar na cor dos personagens.”

Mesmo quando o racismo é aparentemente superado e casais interraciais se relacionam, essa relação fica conturbada com o tempo, observou Jeferson Tenório. “Pedro, o meu personagem de O Avesso da Pele, tem de se pensar o tempo todo como estrangeiro, colocar a máscara branca para sobreviver”. De qualquer modo, concluiu o escritor, “estamos num momento de exposição e muito se tem falado de racismo institucional, estrutural, de lugar de fala, embora esbarremos numa questão básica: devo chamar alguém de negro, preto ou mulato?”

 

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