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A política econômica da Luta Revolucionária: Lições das Panteras Negras

Autor: Redação Kurukshetra Data da postagem: 21:00 22/04/2016 Visualizacões: 4530
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A maneira com que o Partido dos Panteras Negras influenciou suas fontes de financiamentos deveriam orientar os atuais revolucionários sobre a importância de estar no controle dos meios de produção, e assumir seriamente os argumentos marxistas básicos de como o poder econômico influencia o poder sócio-político.

Este artigo aborda como os programas e as instituições sociais básicas (isto é, o poder dual proletário) são sustentadas.


Por um lado, isto é simplesmente uma questão de financiamento e orçamento; mas para um movimento comunista revolucionário, questões de financiamento são intrinsecamente políticas. Afinal, uma premissa básica do Marxismo é que as formações sociais e políticas provém das formações econômicas, e tais questões acerca da economia, do financiamento e do orçamento tornam-se centrais para a organização de estratégias gerais.

É altamente importante examinar como o Partido das Panteras Negras desenvolveu uma base econômica para sustentar seus programas - e como a natureza desta base influenciou seu apogeu e decadência. Essa análise evidencia a importância continuada de compreender a relação entre a base e a superestrutura da sociedade, e é útil para definir o contexto para pensar em criar e controlar espaços produtivos hoje.

As Panteras Negras – Programa radical, Dinheiro Liberal

Enquanto o Partido das Panteras Negras foi provavelmente o movimento revolucionário comunista mais bem-sucedido na história dos Estados Unidos, sua base econômica era dependente de alianças com classes cujo suporte, simpatia e lealdade foram temporárias e instáveis, e o resultaram em um único período na história. Como descrito em “Black Against Empire: The History and Politics of the Black Panther Party (2014)”:

A resiliência da política dos Panteras Negras dependeu intensamente do suporte de três principais setores: negros, opositores da Guerra do Vietnam e os governos internacionalmente revolucionários. Sem o apoio destes aliados, o Partido dos Panteras Negras não poderia resistir às ações estatais repressivas contra eles. Mas a partir de 1969, e aumentar progressivamente até 1970, transformações políticas minaram os próprios interesses que motivaram esses círculos eleitorais a apoiar a política dos Panteras. Como famosos líderes Democratas opuseram-se à guerra e Nixon revogou o alistamento militar obrigatório, os negros adquiriram um maior acesso social e representação política, e os governos revolucionários iniciaram relações diplomáticas com os Estados Unidos, as Panteras ficaram em grande dificuldade para manter seus aliados. (Bloom and Martin 2013: 346-47)

 

Enquanto os panteras da liderança vinham principalmente dos guetos negros pobres em áreas urbanas, o financiamento para sustentar as operações do dia-a-dia normalmente vinham de fontes externas e eram, portanto, subordinados a interesses de classe externos. Assim, foi inevitável que esses interesses de classe externos mudassem, em conformidade com a recomposição e reorientação do capitalismo que estava ocorrendo em escala global durante este período, assim as panteras também submeteram-se a uma recomposição e reorientação.

Os Panteras pareciam ser particularmente dependentes doações de brancos liberais ricos, cujas crianças encaravam a possibilidade de morrer no Vietnam, e portanto encontraram uma causa comum com a plataforma Anti-imperialista dos Panteras. Alguns eventos promovidos pelo país em 1970 renderam aos Panteras um orçamento de US$ 1.2M (Bloom and Martin 2013: 351, 355-56, 392). Infelizmente, não parece ter feito muito trabalho ainda em desagregar essas doações para revelar adequadamente, em termos quantitativos, de quem os Panteras estavam recebendo dinheiro; mas os dados que estão disponíveis devem ser suficientes para apontar para o fato de que indivíduos ricos (ou, pelo menos , os indivíduos muito ricos de base social dos Panteras) foram fundamentais.

Entretanto, os interesses convergentes que definiram o relacionamento entre os Panteras Negras e segmentos da burguesia não iriam durar. A administração de Nixon, ciente do fato que a Guerra do Vietnam estava abastecendo quantidades massivas de agitação e sentimento revolucionário, estrategicamente reorientou os esforços de guerra para apaziguar liberais descontentes. Em 1969, quando Nixon tomou posse, eram mais de 540. 000 soldados americanos no Vietnam; 12. 214 baixas americanas e 225. 000 jovens recrutados pelo exército. Em 1971, eram menos de 16. 000 militares no Vietnam; 1. 381 baixas americanas; e menos de 95. 000 alistados. A redução de escala militar terrestre na guerra do Vietnam levou a redução de apoiadores liberais aos movimentos anti-imperialistas revolucionários como os Panteras Negras. (Bloom and Martin 2013:347-48). As outras duas fontes principais de recursos materiais – Negros da pequena burguesia e governos estrangeiros anti-imperialistas – também começaram a distanciarem-se da luta revolucionária, pois o sistema político abriu-se para políticos Negros e o governo dos Estados Unidos aumentou suas relações diplomáticas com países como China e Argélia.

As contradições entre a ideologia comunista revolucionária do Partido dos Panteras Negras e a ideologia liberal dos financiadores deixou a organização distante. Em meados de 1971, os Panteras tiveram um racha, entre a facção socialdemocrata e a facção rebelde. A facção socialdemocrata, perseguindo apoio material das classes média e alta, interromperam o discurso da luta revolucionária e focaram inteiramente em programas sociais comunitários (que assemelhavam-se mais com campanhas de caridade do que programas de Serviço Popular) e participação política legal – eventualmente submetidas inteiramente às regras do capital. A facção rebelde, determinou continuar a luta armada, mas sem base material expressiva que sustentasse e expandisse seus esforços, tornaram-se clandestinos e distantes da massa pela qual reivindicavam lutar. Em 1975, o novo Partido dos Panteras Negras socialdemocrata aliou-se completamente com as empresas e políticos e funcionou parte como organização sem fins lucrativos, parte como máquina política do Partido Democrata; e os Panteras Rebeldes, que aderiram a rede clandestina de insurgentes pelo Exército de Libertação Negra foram assassinados ou presos, incapazes de resistir aos novos artifícios da violência estatal e sem quaisquer conexões com a comunidade ou acesso à base material sustentável. (Bloom and Martin 2013: 383-89).

1973: Assata Shakur sendo escoltada à um tribunal após envolvimento em um tiroteio em Nova Jersey

Toda esta história reforça a necessidade de haver um apropriado entendimento da luta revolucionária. A base material em que os revolucionários reproduzem seus militantes, seus políticos e suas redes sociais de trabalho são amplamente influenciadas pela sustentabilidade, resiliência e direção de seus programas e sua política (sua superestrutura). O Partido dos Panteras Negras, enquanto fisicamente e politicamente enraizado nas Comunidades Negras urbanas, tornaram-se materialmente dependentes dos setores sociais liberais, da pequena burguesia e da própria burguesia; foi apenas uma questão de tempo até que as contradições inerentes de uma ideologia comunista revolucionária e um setor liberal quedou na bifurcação do Partido, com uma facção buscando dinheiro liberal e, ao mesmo tempo, adotando uma crescente ideologia liberal, e outro mantendo a defesa da luta armada, mas incapaz de levar a cabo suas necessidades concretas imediatas das massas para sustentar-se economicamente.

Vislumbres de Alternativa(s) ?

Um aspecto do financiamento que Black Against Empire não mencionou foi o uso esporádico de meios produtivos para bancar determinadas empreitadas. Como Huey P. Newton discute em seu ensaio e 1971 “On the Relevance of the Church” (“Da Relevância da Igreja”), existiam muitos esforços em estabelecer fabricas para produzir bens básicos como sapatos e roupas que seriam distribuídos de graça nas comunidades:

“Nós temos uma fábrica de roupas sendo construída na Terceira Rua, onde em breve iremos doar cerca de trezentos a quatrocentos novos artigos de roupas a cada mês... O que nós iremos fazer é iniciar a confecção de bolsas de golfe sob contrato de uma empresa, e com o excedente, teremos material para fazer roupas sem custo. Nossos membros farão isto. Nós não iremos ter despesas por causa de nossa coletividade (nós iremos “explorar” nosso coletivo fazendo eles trabalharem de graça).

Nós temos uma fábrica de sapatos que estamos abrindo na Quatorze e a Jefferson. As maquinas e tudo mais foram doadas. Nós vamos usá-las para tirar os presos da cadeia porque a maioria de nós aprendeu como fazer sapatos na prisão. Então isto servirá para dois propósitos: nós podemos fazer cargos na fábrica de calçado e, assim, conseguir alguém para fora em liberdade condicional; e quem está em liberdade condicional deve aceitar doar uma determinada quantidade de calçados a cada semana; nós teremos um programa de “direito de calçar sapatos.”

A criação destes tipos de empreendimentos cooperativos de produção começa a resolver a contradição fundamental entre ter um programa comunista e revolucionário que está sendo financiada por ricos brancos liberais. Guiando-se para realmente controlar meios produtivos , em vez de usar as doações para comprar os produtos de tais fábricas - os Panteras estavam construindo o potencial de se mover em direção a autonomia econômica , e mitigar a necessidade de apelar para as tendências volúveis de aliados moderados e liberais.

Com certeza, problemas sérios ainda rondam este tipo de quadro. O primeiro assunto é que simplesmente criando organizações sem fins lucrativos para dar coisas de graça dificilmente constituem uma intervenção revolucionária nas relações de produção vigentes e no poder econômico (daí , por que essas cooperativas acabaram por ser diluídas e reduzidas a vias legais em meados dos anos 1970). Criar empresas comunitárias ainda operam na lógica capitalista – e se replicada hoje, iriam quase certamente seria dependente de cadeias de suprimentos globais imperialistas como aqueles que extraem metais do Congo e exploraram os trabalhadores na China.

Entretanto, isto não significa que interagir com o capital deve ser evitado a todo custo – mas de preferência, como uma estratégia em criar uma economia de base cooperativa que deve seriamente ser pensada como um meio e não um fim em si mesma.

Esta linha de pensamento também traz uma interessante pergunta histórica “E se? ”. Quão potente poderia ser a estratégia dos Panteras Negras em relação às cooperativas se elas tivessem se juntado com grupos de trabalhadores Negros como a “Liga dos Trabalhadores Negros Revolucionários”, que foram a mais forte dos anos 70? Infelizmente, o sectarismo e o partidarismo também foi uma grande barreira da época e algumas tentativas de aliança entre o PPN e a LTNR em Detroit não duraram. Mas ainda é revigorante pensar o quão poderoso e resiliente tal fusão poderia ter sido: entre a política de vizinhança radical da Panteras e a organização fabril militante da Liga, uma ruptura revolucionária sustentável que apreendeu o controle do espaço e foi economicamente independente poderia ter sido realidade. O fato que tal integração não sucedeu deve ser uma lição aos revolucionários de hoje em dia. Em termos de fazer clara a necessidade de integração e comunicação entre os vários front, espaços e movimentos.

Uma das muitas imagens dos principais organizadores da Liga dos Trabalhadores Negros Revolucionários


Horizontes contemporâneos – O Caso de Bay Area

O que aprendemos sobre os Panteras e a forma como seu financiamento material afetou sua política e organização deve nortear a maneira como nós nos engajamos na luta revolucionária hoje. Das minhas observações pessoais, a base material de radicalismo na área da Baía de San Francisco reflete a base material dos Panteras , da mesma forma que o dinheiro flui em espaços e eventos , principalmente através de doações individuais ou de financiamento sem fins lucrativos radicais. Em geral, isso não parece ser radical e nem controle popular sobre bens produtivos está presente em qualquer forma significativa, pelo menos, não de uma maneira que faz com que esses ativos funcionais dentro de uma estratégia revolucionária maior.

Entretanto, existem inúmeras áreas que estão começando a ir naquela direção. Uma área de luta que estou cada vez mais otimista é o da produção de alimentos; agrícolas e hortas comunitárias urbanas parecia estar explodindo em toda a Bay Area, particularmente a East Bay, e uma rede crescente de fazendas, criada e controlada por povos radicais da classe trabalhadora, poderia ser o começo de uma base material sustentável para o maior movimento revolucionário na região. Na verdade, pensando o famoso Café da Manhã de Graça para Crianças dos Panteras Negras, pode-se imaginar o quanto mais potente este programa poderia ter sido se os Panteras estivessem fornecendo os alimentos através de suas próprias fazendas, em vez de depender de doações de empresas locais. A questão da produção de alimentos localizada também é algo que discutimos longamente em “The Entropy of Capitalism” (2011), onde argumenta-se que estes tipos de experiências em agricultura coletiva e sustentável constituem o desenvolvimento de um modo novo de produção (socialista).

Outra área de interesse é a perspectiva de abertura de "bares comunistas", uma ideia que alguns círculos locais tiveram interesse ultimamente. Muito do interesse como um bar comunista poderia funcionar como um espaço social, para criar mais pontos de entrada para as pessoas de fora ou nas periferias de ativismo radical; mas igualmente importante (em minha mente) é a natureza material de um bar, como uma fonte de receitas e de uma maneira de manter o dinheiro radical dentro dos círculos radicais. Um contemporâneo do caso deste é o bairro de Exarchia anarquista, onde as barres radicais explicitamente funcionam como uma forma de manter o dinheiro dentro do bairro. Muitas pessoas vão para beber independentemente - bem como poderiam comprar bebidas de colegas radicais e ajudar a sustentar uma comunidade vibrante radical, ao invés de enviar o seu dinheiro no mercado capitalista de consumo adequada. E, como Al-Jazeera descreve, outros espaços controlados por anarquistas, como cafés e livrarias, são predominantes e, presumivelmente, também ajudam a manter algum tipo de base econômica para a região.

Estratégias como a criação da jardins urbanos e bares são, com certeza, apenas a ponta do iceberg, e constituem um certo caminho para pensar sobre uma economia que centra sistemas comunais, de baixo para cima. O outro caminho-chave de pensar sobre um sistema econômico é a ocupação de espaços produtivos já existentes, incluindo-os em uma economia social radical maior. Isto volta para a pergunta histórica “E se?” sobre o potencial para coordenação entre os Panteras e a Liga; no contexto moderno, talvez o potencial histórico é refletido no podencial para os jardins e hortas comunitárias para conectarem com trabalhadores de redes de fast foods e apreender o controle das lojas de fast food e convertê-los em cafés comunistas que distribuem comida saudável, produzida localmente. Abaixo McDonald´s, Viva McLenin’s, talvez?

No geral, existem muitas questões acerca do desenvolvimento de base material para a luta revolucionária, que pode somente atingir o entendimento através da experimentação direta e através do real engajamento com as realidades concretas e locais. O que eu penso ser importante para enfatizar é que nenhuma estratégia ou tática deve ser imediatamente descartada ou tida como boa. Por exemplo, criar uma estrutura não lucrativa tem limitações óbvias – mas ainda provavelmente vale a pena explorar maneiras de navegar e empurrar contra esses limites, e se existem boas maneiras de "lavar" dinheiro sem fins lucrativos em atividades radicais autônomas. Outro exemplo é a ideia comum de criação de cooperativas de trabalhadores. Tais grupos operam democraticamente, mas ainda são subordinados ao maior mercado capitalista; mas eles ainda podem desempenhar um papel importante na construção em direção a um movimento revolucionário autônomo. Jackson, Mississippi parece ser uma área-chave que está atualmente experimentando com os limites de ambas as economias cooperativas e cargos políticos locais, como visto nesta discussão entre Bhaskar Sunkara de jacobino Magazine e Chokwe Lumumba, o prefeito de Jackson.

Conferência em Jackson sobre Novas Economias em Ascenção. Da Solidarity

É, com certeza, perigoso criar muitos pontos de contato e pontos de dependências com instituições capitalistas (este foi um ponto importante deste artigo, em última análise); mas em um certo nível, é impossível não tem qualquer interação com o capitalismo. Assim, o projeto de construção de uma expansão de uma base material para a luta revolucionária deve traçar uma tênue, linha traiçoeira entre cair em política banal prefigurativa, e ser incorporada numa democracia burguesia e do capitalismo.


Conclusões

Como a experiência dos Panteras Negras mostra, a forma como uma organização é financiada é extremamente influente no caminho que a política e programas da organização evoluem e mudam. Isso não deve ser uma surpresa para os marxistas, e sustenta as dimensões econômicas da ideia de que o proletariado deve organizar-se e organizar-se independentemente de outras classes. Assim, uma tarefa fundamental para os radicais hoje é ajudar a construir e ampliar espaços produtivos que podem ajudar a sustentar as instituições proletárias e os programas concretos. Este é um processo dinâmico e contínuo, e cruza-se com o desenvolvimento de um novo modo, pós-capitalista de produção. E acima de tudo, é uma tarefa necessária; não podemos continuar a nossa forma de "empresários usuais" em nossos rituais intermitentes de comícios, protestos e teatro, que só operam no nível de superestrutura. Precisamos permanecer fiéis ao que significa ser "radicais", tomar o materialismo histórico sério, e colocar mais energia para navegar nas raízes do capitalismo e no poder burguesia: a base material, o controle sobre a economia, o controle sobre a produção e sobre a distribuição.


Tradutor: Róbson Gil Farias Oliveira


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