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Estudos mostram impacto do racismo na saúde das crianças

Autor: AGÊNCIA O GLOBO Data da postagem: 16:00 21/08/2019 Visualizacões: 481
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Mulheres pretas receberam menos anestesia local quando a episiotomia (corte na região do períneo para aumentar o canal de parto) foi realizada

Grávidas negras recebem menos orientações sobre o trabalho de parto

O racismo começa a afetar a saúde de crianças e adolescentes ainda no útero. Na gravidez, a exposição prolongada da mãe a hormônios do estresse, por exemplo, pode colaborar para o nascimento de bebês com baixo peso e o aumento das taxas de mortalidade infantil. As consequências são acentuadas pela dificuldade de mulheres negras em ter acesso ao pré-natal.

É o que afirma artigo publicado, na semana passada, pela Academia Americana de Pediatria, que aponta diretrizes para que os médicos adaptem sua prática para lidar com o tema. É a primeira vez que a instituição utiliza a palavra “racismo” no título de uma publicação.

No Brasil, a realidade não é diferente. O trabalho “A cor da dor: Iniquidades raciais na atenção pré-natal e ao parto no Brasil”, publicado em 2017 por pesquisadores da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (Ensp/Fiocruz), aponta que grávidas negras têm maior risco de ter um pré-natal inadequado, com menos orientações sobre o trabalho de parto e possíveis complicações na gestação. Além disso, mulheres pretas receberam menos anestesia local quando a episiotomia (corte na região do períneo para aumentar o canal de parto) foi realizada. 

“Uma das possíveis consequências da violência obstétrica é a baixa produção de leite. Como o acesso à saúde para a mulher negra ainda é deficiente, elas nem sequer conseguem diagnóstico e tratamento correto para a doença”, destaca a enfermeira obstétrica e doutora em epidemiologia Jacqueline Torres.

A academia norte-americana pede que pediatras estejam cientes dos efeitos do racismo no desenvolvimento infantil e que levem isso em consideração durante o atendimento. Além de reconsiderar a própria visão sobre a questão racial, as autoras propõem que médicos se envolvam mais para compreender a realidade dos pacientes e tornem seus consultórios espaços representativos para que as famílias se sintam seguras para falar sobre racismo.

“Pais e responsáveis que relataram ter sido tratados injustamente têm maior probabilidade de ter filhos com problemas comportamentais, como transtorno do déficit de atenção e hiperatividade”, aponta Maria Trent, professora de pediatria da Escola de Medicina Johns Hopkins e uma das coautoras do artigo, em entrevista ao “New York Times”.

Saúde mental e física em risco

Em idade escolar, o racismo pode impactar a saúde mental, tornando-se um dos fatores responsáveis por desencadear doenças psíquicas como a depressão. O artigo norte-americano cita estudo que aponta que garotos de 10 a 15 anos que tiveram experiências com racismo tornam-se mais propensos a desenvolver problemas comportamentais, como agressividade. Durante a infância, o estresse pode criar hipervigilância em crianças que sentem que estão vivendo em um mundo ameaçador. As consequências podem incluir estresse pós-traumático, ansiedade e depressão.

Pediatra e neonatologista do Hospital Universitário Pedro Ernesto, Rosane de Souza destaca que frequentemente recebe meninas com alopecia de tração. “O cabelo crespo é tão esticado, pois a família acha que a sociedade vai aceitar melhor, que essa tração altera a vascularização do couro cabeludo, e o cabelo deixa de nascer”, diz.

Prestação de cuidados é deficiente

O artigo norte-americano também identifica o racismo como um fator que afeta a prestação de cuidados de saúde. Médica e professora em saúde pública da Unirio, Maria Aparecida de Assis atribui à inadequação do sistema de saúde a dificuldade das famílias de levar as crianças a consultas periódicas com pediatras e de mulheres grávidas completarem todas as seis consultas do pré-natal, quantidade mínima recomendada pelo Ministério da Saúde.

“Se as pessoas negras são a maioria na informalidade e entre os que moram longe do trabalho e, por isso, precisam sair de casa antes de amanhecer e só retornam muito tarde, um posto de saúde que só funciona de segunda a sexta, das 8h às 17h, não atende essa população”, afirma Maria. 

Para Lúcia Xavier, coordenadora da ONG Criola, instituição de defesa dos direitos humanos da população negra, a saúde deve ser vista de forma integral, uma soma de medidas sociopolíticas, programáticas e pessoais.

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