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Coronavírus, pobreza, racismo estrutural e sexismo: Estamos no mesmo mar, mas não no mesmo barco

Autor: Bruna Ribeiro Data da postagem: 12:06 08/04/2020 Visualizacões: 952
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Coronavírus, pobreza, racismo estrutural e sexismo: Estamos no mesmo mar, mas não no mesmo barco/Imagem: Reprodução - UMNews

A primeira morte causada pelo coronavírus no Rio de Janeiro foi de uma empregada doméstica. A patroa havia viajado para a Itália e infectou a senhora de 62 anos, que era também diabética e hipertensa, de acordo com os noticiários. “Quem viajou para o exterior e quem morreu? ”, questionou Terlúcia Silva, assistente social e integrante da organização Bamidele e do Movimento de Mulheres Negras da Paraíba, em entrevista ao Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (Ceert).

Também pesquisadora de violência doméstica e racismo, Terlúcia disse que se preocupa com o olhar generalista e universal a respeito da crise mundial da propagação da COVID-19.  “Eu vejo que os olhares estão muito nessa lógica de que o vírus atinge todo mundo e que não escolhe raça ou classe social, mas é preciso trazer outros aspectos para o debate, como a própria persistência do racismo estrutural na sociedade que coloca grande parte da população em maior vulnerabilidade de doenças e picos de violência”, disse a pesquisadora.

Terlúcia ressalta que evidentemente todos estão vulneráveis a serem contaminados, mas “o poder de proliferação em um condomínio de luxo e na favela é completamente diferente”, considerou. Para ela, muitas das orientações - como isolamento, uso de álcool em gel e lavar a mão diversas vezes ao dia - não podem ser aplicadas em comunidades, pois são espaços de natural aglomeração, muitas vezes sem acesso à água potável.

“O presidente Jair Bolsonaro está dizendo que ‘são apenas algumas mortes’. Se o sistema de saúde entrar em colapso e chegar o momento em que vamos precisar escolher quem irá usar o respirador, não duvido que as escolhas serão feitas a partir de critérios terríveis. É momento de afirmar o caráter genocida do Estado brasileiro”, disse.

Violência doméstica

A violência doméstica também é uma preocupação durante a crise. Segundo Terlúcia, dados mostram que a violência é maior aos finais de semana, pois é quando o agressor está em casa. “Isso nos leva a acreditar que a agressão pode aumentar durante o período de isolamento, como ocorreu na China”, sugeriu.

Em pronunciamento no último dia 29, Bolsonaro justificou a violência contra a mulher para defender o fim do isolamento. “Tem mulher apanhando em casa. Por que isso? Em casa que falta pão, todos brigam e ninguém tem razão. Como é que acaba com isso? Tem que trabalhar, meu Deus do céu. É crime trabalhar? ”, disse o presidente.

Na opinião da especialista, Bolsonaro justificou a violência, reforçando a forma equivocada como as mulheres são tratadas no Brasil, sendo culpabilizadas pelas violações das quais são na verdade vítimas. “Qualquer contrariedade se torna motivo para violência. “Isso tem a ver com o machismo patriarcal e a ideia de posse, de que a mulher existe para servir”, comentou.

Por isso, Terlúcia relembra a importância da sociedade no engajamento de combate à violência doméstica. “Não podemos entender a situação como um problema privado. O pedido de socorro não compete somente à mulher ou à criança que sofrer violência. É preciso chamar atenção para a corresponsabilização da sociedade. ”

Saúde

No Brasil, foram confirmadas mais de 200 mortes causadas pela doença e quase 6 mil casos confirmados. Na Itália, o novo coronavírus matou mais de 12.500 pessoas e a Espanha já ultrapassou a marca de 100 mil infectados.

Informações divulgadas pela imprensa ainda revelam que 75% dos brasileiros usam o Sistema Único de Saúde (SUS), enquanto apenas 25% têm acesso à rede particular de saúde. Apesar de ser mais procurado, o SUS tem apenas 44% dos leitos de unidades de terapia intensiva (UTIs) do país.

A bióloga e professora Rosa Maria Andrade lembra da importância de acesso ao conhecimento científico e à informação de qualidade para a prevenção. Ela acredita que nem todo mundo tem as informações e condições adequadas, pois muitas vezes a ciência fica restrita a uma parcela da sociedade.

 “Além disso, as pessoas mais vulneráveis podem ter o sistema imunológico mais aberto e menor resistência, devido à alimentação e à moradia precária. Não temos estudos específicos e nem dados a respeito desse vírus no Brasil, mas sabemos que isso acontece em outras doenças. A priori, é lógico que quem está em condições de saúde, em ambiente melhores e com água potável está mais protegido”, disse.

“Não está todo mundo no mesmo barco, não. No máximo, estamos no mesmo mar. Alguns estão em um iate e outros segurando no toquinho de madeira”, finalizou.

Campanha

A Campanha Favela Contra o Vírus, promovida pela Central Única das Favelas (CUFA), visa arrecadar doações para ajudar as localidades mais vulneráveis nos tempos de pandemia. No dia 22 de março, foi lançado um clipe para fortalecer a campanha, com uma música escrita por Dudu Nobre, Edi Rock (Racionais Mcs), Dexter e Ivo Meirreles. 

A música foi interpretada por diversos artistas que conhecem a realidade da favela, entre eles Alcione, Xande de Pilares, Péricles, Karol Conká, Ferrugem, Pretinho da Serrinha, Sandra de Sá, Grupo Bom Gosto, Mc Menor MR e Mumuzinho.

Confira:

 

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