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Como vídeos com violência policial afetam a saúde mental de jovens negros

Autor: Luciana Faustine Data da postagem: 13:33 10/09/2020 Visualizacões: 164
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Jovem negra vendo conteúdo desconfortável em seu smartphone/Imagem: Reprodução - Uol

Raíssa França, estudante de 17 anos, desistiu. Não vê vídeos ou qualquer conteúdo que mostrem negros como ela sendo massacrados pela polícia. "É torturante", diz a moradora de Santa Cruz, bairro no extremo oeste da cidade do Rio de Janeiro. Ao ter contato com imagens, que inevitavelmente aparecem nas redes sociais, Raíssa se sente sufocada, sobretudo pela impotência.

O receio da estudante não é isolado. Em pesquisa sobre os impactos que conteúdos audiovisuais de violência policial têm sobre adolescentes e crianças negros, pesquisadores americanos concluíram que os vídeos virais de imigrantes presos em jaulas na fronteira dos Estados Unidos com o México e o de assassinatos de cidadãos desarmados, como no caso de George Floyd, desencadeiam sintomas de depressão e transtorno de estresse pós-traumático.

A pesquisa foi desenvolvida pela Universidade do Sul da Califórnia e publicada no Journal Of Adolescent Health em julho do ano passado. O interesse pelo tema surgiu após Brendesha Tynes, principal pesquisadora do estudo, perceber o quanto ela própria se incomodava com as imagens que via e questionar como o conteúdo impactava as crianças e os adolescentes.

Os pesquisadores coletaram dados de uma amostra de 302 adolescentes afro-americanos e latino-americanos com idade entre 11 e 19 anos. A principal linha de pesquisa era detectar se há correlação entre exposição a eventos traumáticos online, raça e sintomas depressivos e de transtorno de estresse pós-traumático (PTSD).

Os adolescentes respondiam a um questionário, que continha perguntas como "qual a frequência com que assiste a eventos traumáticos nas redes sociais", "frequência com que vê imagens ou vídeos de outras pessoas de seu grupo étnico sendo espancada, presa ou detida", "ou vídeo viral de um negro sendo baleado por um policial". Os adolescentes também tinham de responder quão frequente se sentiam tristes e se a tristeza incluía vontade de chorar, sensação de solidão e vontade de ter amigos.

Outro item, essencial para a conclusão, foi sobre o comportamento esquivo do adolescente, ou seja, quanto ele evitava locais e atividades onde um evento traumático ocorreu. Respondendo sim ou não, os adolescentes eram questionados se algum dos sintomas depressivos ocorreu após se envolverem em eventos traumáticos na vida ou testemunharem um caso assim.

Após analisarem a pontuação das respostas, os pesquisadores concluíram que experiências mais frequentes de eventos traumáticos online estavam associadas a níveis mais elevados de sintomas de estresse pós-traumática. Entre as meninas, os índices eram ainda mais altos. A estudante Raíssa evita o quanto pode a exposição a vídeos violentos.

"Para mim, é uma coisa torturante ter um contato mais direto com isso. A gente sabe que é real, sabe que acontece, mas ver é uma coisa que tortura" - Raíssa França, estudante

Raíssa França, estudante de 17 do Rio anos que evita assistir a vídeos de violência por se sentir sufocada Imagem: Arquivo Pessoal/Raíssa França

As imagens, diz, a lembram de que o mesmo pode acontecer com familiares ou pessoas queridas. "A maioria dos meus amigos homens, todos negros, já foi abordada. Quando me contam sobre uma das abordagens, meu coração fica na mão", diz.

A ansiedade e preocupação vividas pela estudante, potencializadas durante a pandemia, fizeram sua irmã mais velha buscar tratamento psicológico para Raíssa conseguir lidar "com tudo o que aparecia na tela do celular", conta.

Impactos mentais e físicos

Para o psicólogo Tiago Ferreira, cuja dissertação de mestrado apresentada na Universidade Federal da Bahia tratava da interseção entre raça e brutalidade policial, a violência também afeta o a saúde física de quem tem acesso aos conteúdos. Ele explica que a teoria do impacto no sistema orgânico do indivíduo é oriunda da obra do psicólogo norte-americano Naim Akbar.

"Para Akbar, o indivíduo submetido a essas condições pode desenvolver doenças crônicas renais, hipertensão e quadros de diabetes. Outras pesquisas já indicaram que pessoas que vivem em ambientes vulneráveis, como aqueles em que o racismo predomina, estão mais predispostas a ter esses quadros", conta o psicólogo.

Em seu estudo, Ferreira se aprofunda nos efeitos psicossociais que a necropolítica (termo desenvolvido pelo historiador, filósofo e teórico político camaronense Achille Mbembe para explicar como o poder social e político determina quais pessoas podem morrer e quais podem viver) tem sobre a vida da vítima. Quando exposto ao racismo, o adolescente pode desenvolver sintomas como ansiedade, insegurança e autoexigência, que levam o jovem a se cobrar mais do que a maioria das pessoas. Isso faz com que ele cresça com medo de estabelecer uma relação segura com familiares e a sociedade em geral.

Para Ferreira, a violência policial exposta em vídeos é a reprodução cotidiana da desumanização dos corpos negros. Quando adolescente ou criança acessam esses conteúdos, diz, é como se ativasse a lembrança cotidiana da situação social e do risco eminente de ser violentado. "É algo que pode acontecer a qualquer momento".

"Os homens negros da minha pesquisa relataram o fato de serem vistos como marginais e do receio de serem confundidos [com bandidos] em uma abordagem policial ou de provocar medo nas outras pessoas. Por isso, acessar esses materiais, esses conteúdos de violência, só faz com esses jovens permaneçam em contato com essa dinâmica de racismo, de exclusão social" - Thiago Ferreiro, psicólogo

Negros são os que mais morrem no País

Pretos e pardos foram as vítimas de 75,7% dos homicídios em 2018, segundo o Atlas da Violência de 2020, publicado em agosto deste ano. Entre os não negros (brancos, amarelos e indígenas), a taxa foi de 13,9%.

De acordo com o levantamento, o risco de uma pessoa negra ser assassinada é consideravelmente superior à de uma pessoa não negra. O atlas ressalta que, com exceção do Paraná, em todos os estados do País um negro tem mais chances de ser assassinado do que um não negro.

Para cada pessoa não negra morta de forma violenta naquele ano, 2,7 foram negras. As negras somam 68% do total de mulheres mortas no país.

Crianças não estão livres

Ferreira explica que submeter crianças a um cotidiano de insegurança social, ainda que apenas virtualmente, pode potencializar sinais de doenças psicopatológicas, como ansiedade e depressão.

Para a psicóloga e pesquisadora Maria da Conceição Costa, que estuda Clínica Psicológica Antirracista, as crianças percebem o que ocorre a sua volta, ainda que não saibam verbalizar o que estão sentindo.

Costa narra o caso de uma menina de 2 anos de idade, vítima de racismo na escola. Após as professoras lidarem de forma pejorativa com seu cabelo e dizerem que ele precisava ser domado, a menina passou a ter crises de choro e recusar ir à aula. Dizia apenas que "a tia da escola não a tratava bem".

Segundo Costa, a criança vítima de racismo pode apresentar sintomas como dor de cabeça, ansiedade e sudorese e, com certeza, "tem impacto na autoestima".

A boa notícia é que, quando amparadas psicologicamente, as crianças conseguem ressignificar as situações vividas mais rapidamente que um adulto.

A psicóloga ressalta a importância da identificação para as crianças. Ao assistirem a novelas, séries e desenhos, elas se colocam no lugar dos personagens. Quando veem vídeos de violência policial ou presenciam situações de violência, no entanto, também se veem como alguém que pode sofrer o mesmo.

"Ela não sabe que é preconceito, que é racismo, mas sabe que tem algo ali, algo que não é legal"

A solução, diz a psicóloga, não é impedir a criança de ver determinados conteúdos, mas, sim, explicar o que está acontecendo e por que está acontecendo. É importante dar nome aos acontecimentos. Isso permite estabelecer um ambiente de segurança e dá ferramentas para que a criança informe se algo ocorrer com ela.

"É preciso explicar que aquilo não é culpa da pessoa negra, que uma situação de racismo vivida na escola não é culpa da criança. Tem que dizer, 'isso é racismo', 'isso é preconceito'. Mesmo se a criança tiver 3 anos" - Maria da Conceição Costa, psicóloga e pesquisadora

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