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À espera da vacina: profissionais negras são as mais afetadas pela pandemia

Autor: André Santana Data da postagem: 14:00 01/02/2021 Visualizacões: 260
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Técnicas de Enfermagem, como Carine Santos de Salvador, são as profissionais de saúde mais afetadas pela pandemia/Reprodução: UOL

Quando o governo de São Paulo, na disputa política e midiática com o governo federal, escolheu a enfermeira Mônica Calazans como primeira pessoa no Brasil a receber uma dose da vacina Coronavac, em 17 de janeiro, evidenciou aspectos simbólicos e históricos da função de cuidar no Brasil: as mulheres negras são maioria entre os profissionais que atuam diretamente no atendimento de saúde —em especial, na enfermagem.

Pesquisa do Conselho Federal da Enfermagem de 2017 revela que 55% dos profissionais de enfermagem se declaram negros. Sobre a formação, 23% são enfermeiros e 77% são técnicos e auxiliares. Melhor dizendo, são enfermeiras, técnicas e auxiliares, já que 85% dos profissionais pesquisados são mulheres.

Esses números constam no artigo "Mulheres negras e a realidade da enfermagem no Brasil", da doutora em Ciências pela USP, Alva Helena de Almeida, que trata da invisibilidade desta mulheres que constituem a maioria dos profissionais que atuam no Sistema Único de Saúde.

Mulheres negras estão no enfrentamento direto à pandemia e são as mais afetadas pela crise

Pesquisa da Fundação Getúlio Vargas, em parceria com a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) e a Rede Covid-19 Humanidades, divulgada em dezembro de 2020, mostra que profissionais de saúde negras estão com a saúde mental mais debilitada pela crise de saúde, sentem-se menos preparadas para trabalhar durante a pandemia e sofrem mais com assédio moral.

São também as profissionais que sentem mais medo do novo coronavírus, tanto pela possibilidade de se infectar quanto de contaminar seus familiares e colegas. São ainda as que mais estão tristes na pandemia. Entre as razões para a tristeza estão a exaustão no trabalho e a queda da renda familiar na crise.

A pesquisa entrevistou 1.520 profissionais de saúde de todo o país, entre médicos, profissionais de enfermagem e agentes comunitários. Os dados obtidos revelam o elevado grau de vulnerabilidade das mulheres negras profissionais de saúde. No outro extremo, os homens brancos têm os menores índices de impacto da pandemia, seja no nível menor de assédio e no maior suporte e treinamento para lidar com a crise.

"Historicamente, criou-se uma hierarquia no trabalho em saúde, com uma maioria de mulheres negras na base da atenção e no atendimento, sendo supervisionadas por pessoas brancas. São essas mulheres que estão mais próximas do cuidado direto, do acompanhamento, sendo responsáveis por administrar a higienização e a medicação", pontua a Doutora em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo, Maria Inês Barbosa.

A pesquisadora, que foi consultora nacional da Organização Panamericana de Saúde no Brasil, entre 2013 e 2017, chama atenção para o processo de esgotamento dessas profissionais.

"Elas sofrem o racismo cotidiano, a desvalorização da profissão, inclusive em termos salariais, e muitas precisam trabalhar em mais de um local para completar a renda."

Em Salvador, família aguarda a vacina

A técnica em enfermagem, Carine Santos, 36 anos, trabalhava até fevereiro de 2020 no Hospital Couto Maia, referência em doenças infectocontagiosas do Brasil, localizado em Salvador.

Antes do anúncio da pandemia do novo coronavírus e do hospital se tornar central no atendimento aos pacientes de covid na cidade, Carine foi transferida para a Maternidade Albert Sabin, no bairro de Cajazeiras, onde mora.

Precisou se afastar da filha de 14 anos por conta dos longos plantões e dos riscos de contaminação. Mesmo na maternidade não deixou de conviver com a doença que, até o dia 29 de janeiro, já havia tirado a vida de mais de 10 mil pessoas na Bahia —sendo 3.320 só em Salvador.

"As gestantes chegam em trabalho de parto, a gente cuida e somente depois descobre que estão positivada para covid", conta.

Mesmo com todos os cuidados e utilização dos equipamentos de proteção, em dezembro, Carine testou positivo.

"Além da forte dor de cabeça e da falta de ar, o pior é a solidão, ficar longe da família e o medo de que a doença evolua."

Carine se recuperou, retornou ao trabalho e agora aguarda receber a primeira dose da Coronavac. De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde, a meta de vacinar todos os 23 mil profissionais que atuam na linha de frente no atendimento a pacientes com covid foi alcançada esta semana. Neste momento, estão sendo vacinados outros profissionais de saúde que atendem na rede pública da cidade.

Na expectativa para ser vacinada, Carine diz que sente uma esperança depois de um ano de muitas incertezas e notícias tristes. Somada às apreensões por conta da doença, ela viu a pobreza aumentar em sua comunidade. "É muito triste chegar do plantão e encontrar pessoas na porta pedindo comida, principalmente crianças", lamenta.

Há mais de 15 anos, a técnica de enfermagem realiza ações sociais no bairro de Cajazeiras, como a distribuição de cestas básicas para famílias carentes.

"Mensalmente, conseguíamos organizar de cinco a dez cestas. Mas com a pandemia tivemos que aumentar para 40 cestas, por conta do número de pessoas que nos procuraram precisando de ajuda." As cestas são montadas com recursos próprios, com ajuda da família e de comerciantes do bairro.

Mesmo distantes fisicamente, as dificuldades enfrentadas por Carine em 2020 foram compartilhadas com sua mãe, sua irmã e sua tia. Todas profissionais de saúde.

Em meio à dedicação, casos de violência

A rotina delas, em hospitais e postos de saúde, confirmam a situação de exaustão e de vulnerabilidade à qual estão expostas. A mãe de Carine, Maria Nilma Santos, 58 anos, é técnica de enfermagem há mais de três décadas. Ela conta que foram anos de muita dedicação à profissão e de afastamento da família. "Eram tantos plantões que não vi minhas filhas crescerem", lamenta. Mas se diz orgulhosa pela escolha das filhas. "Sou muito feliz pela profissão que abracei e pelo reconhecimento que recebo de pacientes e dos colegas da saúde."

Após todos os anos de dedicação, Maria Nilma conta que vivenciou, em 10 de janeiro deste ano, a pior experiência profissional. Em mais um plantão em uma maternidade da cidade, foi surpreendida por uma mulher, acompanhante de um recém-nascido, que sem motivos gritou, xingou e a agrediu fisicamente. O caso foi registrado em delegacia e Maria Nilma precisou de apoio para superar a violência.

"Sofri muito por passar por isso quase no final da minha carreira. Não é justo, pela maneira que trato a todos. Ainda tenho muita dificuldade para falar sobre o assunto. Mas tenho recebido o carinho dos amigos e da minha família", conta.

Assim como Dona Nilma, a tia de Carine, Romilda Santos, que é enfermeira em outra maternidade da cidade e a irmã, Carla Santos, que trabalha em uma clínica de radiologia, ainda não foram vacinadas. Depois da espera pela confirmação dos nomes na listagem da Secretaria Municipal de Saúde, Carine e a família se organizaram para serem vacinadas, juntas, neste sábado, 30.

"Crescemos acompanhando minha mãe e minha tia em plantões e atendimento às pessoas do bairro e acreditando que esta era a melhor profissão que existe. Hoje sabemos de todas as dificuldades, ainda mais neste momento de pandemia", afirma Carine.

O bairro em que elas moram, Cajazeiras, possui mais de 60 mil moradores que têm tido muita dificuldade para manter as medidas de isolamento. O comércio do bairro, além de bares e feiras livres, têm produzido aglomerações que preocupam as autoridades e as profissionais de saúde da família Santos.

"Sei que muita gente tem necessidade de trabalhar, mas falta consciência sobre a gravidade da doença. Conhecimento tem, falta consciência. O povo está desacreditado", avalia Carine.

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