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Vacinação contra Covid-19 escancara desigualdades entre países e é um alerta climático

Autor: Brian Kahn Data da postagem: 12:00 17/02/2021 Visualizacões: 44
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Uma vacina contra Covid-19 sendo retirada de um frasco./Reprodução: Gizmodo

Os esforços de vacinação contra Covid-19 estão finalmente ganhando impulso nos EUA. Desde que falamos sobre o otimismo em relação ao fim da pandemia, os dados coletados pela Bloomberg mostram que mais 2 milhões de norte-americanos receberam uma injeção.

Os EUA estão ultrapassando a maioria dos países europeus em termos de doses administradas por 100 pessoas. Olhando para o mapa da Bloomberg, entretanto, há uma discrepância ainda maior. O continente africano está quase vazio, assim como grande parte da América Latina e da Ásia Central e do Sudeste. Os contratos de vacinas também revelam um enorme abismo – nos Estados Unidos, há vacinas compradas suficientes para imunizar 199% da população. Canadá e Reino Unido estão acima de 300%.

Em contraste, muitos países africanos estão na casa de um dígito. Essa distribuição desigual está criando o que Winnie Byanyima, diretora-executiva da UNAids e subsecretária-geral das Nações Unidas, chamou de “um apartheid global de vacinas”, e é uma lição do que a crise climática reserva se os países do Norte Global monopolizarem as soluções.

Assim como a crise climática, a pandemia expôs os abismos que existem entre os que têm e os que não têm. A nível nacional, nos Estados Unidos e no Brasil, isso resultou na morte de negros, pardos e indígenas em taxas mais altas do que a população branca. Enquanto a maioria dos funcionários de escritórios podem trabalhar com segurança em casa, aqueles que trabalham em empregos de baixa remuneração, como operários de fábricas e entregadores, foram expostos ao vírus e forçados a lutar pelo direito de serem protegidos também. O lançamento da vacina nos Estados Unidos seguiu padrões semelhantes e a injustiça é ainda mais aguda em nível global.

No momento, a demanda por vacinas contra Covid-19 está superando a oferta. Mas, como mostra a análise dos dados globais do Bureau of Investigative Journalism, a distribuição desigual de vacinas devido à riqueza, influência e financiamento dos países ricos para o desenvolvimento de imunizantes pode acabar deixando o resto do mundo para trás.

Os países desenvolvidos também pagaram menos pela vacina do que os países em desenvolvimento, em alguns casos; o Bureau for Investigative Journalism descobriu que Uganda pagou US$ 7 por dose da vacina AstraZeneca, o triplo do preço da União Europeia. É quase como oferecer uma refeição gratuitamente a uma celebridade em um restaurante enquanto força alguém que vive de salário mínimo a cobrir a diferença em sua conta.

As razões para uma distribuição mais equitativa da vacina são múltiplas. Há uma ideia prevalecente de que, uma vez que os EUA, por exemplo, sejam vacinados a ponto de atingir a imunidade coletiva, as coisas podem voltar a algo próximo da vida normal. Mas, como vimos, o coronavírus não respeita fronteiras. Quanto mais o coronavírus circular em outros países, maior será o risco de mutações que as vacinas podem não ser capazes de combater. Já estamos vendo isso com a variante sul-africana, que parece capaz de passar furtivamente pelas defesas da vacina da AstraZeneca (embora a doença pareça ser menos grave quando isso acontece).

Além disso, há também um risco muito real de que se a pandemia continuar em países distantes das fronteiras dos países ricos, ela ainda possa causar estragos em suas economias. O mundo não está conectado apenas por viagens aéreas, mas também pelo comércio. A desaceleração econômica em países onde o vírus ainda está em alta pode prejudicar a cadeia de abastecimento e desacelerar a economia em países onde a imunidade coletiva foi alcançada.

A Covax, um esforço global para os países ricos financiarem a distribuição de vacinas em países mais pobres, está preparada para ajudar de alguma forma, fornecendo vacinas para 20% das populações dos países registrados. Mas há um forte clamor internacional para distribuir as várias vacinas contra Covid-19 aprovadas ainda mais equitativamente, bem como um pedido para que os reguladores relaxem as patentes das vacinas para que a produção possa ser aumentada para o bem do mundo. Os países ricos poderiam doar doses excessivas de vacina para a Covax ou por outros meios, embora poucos tenham estabelecido planos ou um cronograma para fazer isso.

Eles podem querer considerar todos esses caminhos para seu próprio bem; um documento que modela uma estratégia cooperativa de distribuição global de vacinas em que os países recebem doses em relação ao tamanho de sua população mostra que isso resultaria em 61% menos mortes em todo o mundo. Decidir a avó de quem ou qual médico será vacinado – e quem potencialmente morrerá como resultado de não ser vacinado – é preocupante, e eu não invejo os tomadores de decisão tendo que fazer essas escolhas e explicá-las ao público. Mas há um forte argumento para os países trabalharem juntos em vez de tentar salvar apenas a si próprios.

A luta para operar sob esse paradigma com o perigo claro e presente da pandemia é um sinal preocupante enquanto o mundo tenta enfrentar a crise climática. A única razão pela qual a crise climática existe é que os países ricos passaram décadas queimando combustíveis fósseis à custa do agravamento dos choques climáticos no país e no exterior. Os impactos das decisões tomadas nessas décadas também reverberarão ao longo deste século, à medida que o clima tenta encontrar um novo equilíbrio.

O mesmo também se aplica às decisões que tomamos coletivamente hoje. Cortar o combustível sujo que está causando a crise climática é apenas um aspecto de uma mudança muito maior necessária. Descobrir como dividir as emissões que podemos colocar na atmosfera com relativa segurança nas próximas décadas também tem o mesmo grau de impotância. Os países ricos emitiram muito mais do que deveriam. Em primeiro lugar, foi isso que permitiu que eles se tornassem países ricos.

Quando se trata de descarbonização, um plano justo faria com que os países ricos assumissem o fardo de liderar e fornecer conhecimento técnico aos menos desenvolvidos. Como não podemos aumentar o bolo das emissões permitidas sem piorar o desastre, isso também daria a esses países uma parcela maior do bolo que resta.

Ao mesmo tempo, as mudanças que já travamos irão literalmente remodelar o mundo como o conhecemos. Mesmo na melhor das hipóteses, em que o mundo continua aquecendo até o limite de 1,5 grau Celsius acima dos níveis pré-industriais, milhões de pessoas ainda serão forçadas a migrar por causa da seca, calor extremo ou aumento do nível do mar. A terra arável encolheria em regiões como a orla do Saara, prejudicando os meios de subsistência. Eventos extremos, como os grandes furacões que atingiram a América Central no ano passado, se tornariam mais comuns.

Os países ricos podem construir todos os paredões ou instalar todos os aparelhos de ar condicionado que funcionam com energia eólica que quiserem. No final do dia, eles também precisarão encontrar uma maneira de ajudar os países com menos recursos a fazerem o mesmo, tanto por ser algo eticamente correto a se fazer, como também pelos mesmos motivos pelos quais deveriam encontrar uma maneira de obter mais vacinas para países necessitados.

Considere a guerra civil na Síria, que uma seca causada pelas mudanças climáticas ajudou a desencadear. Isso desestabilizou um país inteiro, levou ao surgimento do ISIS e criou uma crise de refugiados que alimentou o sentimento de extrema direita e anti-imigrantes em toda a Europa. Embora a ajuda aos fazendeiros atingidos pela seca por si só não teria necessariamente contido as atrocidades do presidente sírio Bashir al-Assad, a guerra, a morte e a desestabilização da última década são o que nos espera se o mundo não se tornar mais democrático e cooperativo.

 

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