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Pesquisa revela impacto da pandemia entre moradores de favelas do Rio: população negra é a maior vítima

Autor: Redação JORNAL DO BRASILO coletivo Movimentos - organização de jovens de diferentes favelas do Rio d Data da postagem: 15:05 28/09/2021 Visualizacões: 303
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Morador usa máscara de proteção na favela da Rocinha/Reprodução: JORNAL DO BRASIL

O coletivo Movimentos - organização de jovens de diferentes favelas do Rio de Janeiro dedicada a construir uma nova política de drogas a partir de uma perspectiva periférica - lança nesta segunda (27) o estudo - Coronavírus nas favelas: a desigualdade e o racismo sem máscaras, pesquisa inédita sobre os impactos da pandemia da Covid-19 em três grandes favelas da cidade do Rio de Janeiro: Complexo do Alemão, Complexo da Maré e Cidade de Deus.

O estudo realizado pelos membros do coletivo, com apoio do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), demonstra como a população destas favelas tem sido afetada pela pandemia. Para entender melhor este impacto, os pesquisadores elaboraram um questionário fechado com perguntas organizadas por eixos temáticos: 1) Perfil socioeconômico; 2) Covid-19 e acesso à saúde; 3) Impactos da pandemia na saúde mental; 4) Uso de drogas durante a pandemia e 5) Violência.

Com intuito de revelar a realidade das favelas por quem as vive, "a pesquisa mostra que as vítimas da Covid-19 são, majoritariamente, pessoas pretas, pobres e periféricas", afirma Aristênio Gomes, coordenador do Movimentos e morador do Complexo da Maré.

Atualmente, o agravamento do descaso histórico ordenado pelo Estado é acentuado a partir da postura negacionista do governo federal. Segundo o coletivo Movimentos, as declarações públicas reducionistas do presidente da República em relação à gravidade do vírus, o desestímulo às medidas preventivas, a falta de coordenação da crise e o atraso das vacinas constituem um verdadeiro genocídio nas favelas.

Em 2020, como aponta o relatório, o governo federal deixou de gastar mais de R 80 bilhões do orçamento destinado ao combate à pandemia, permitindo, assim, que a situação escalasse para os mais de 200 mil mortos pelo vírus em 2020, com taxas recorde de desemprego (13 milhões de pessoas).

"Além de construir uma potente rede solidária para suprir a ausência do Estado, os jovens das favelas discutem impactos da política de drogas em seu cotidiano, e produzem dados para que a sociedade conheça a realidade que vivemos sob a perspectiva de quem nasce, cresce e mora nesses lugares, que são alvo de várias violências do poder público", comenta Ricardo Fernandes, coordenador do Movimentos e morador de Cidade de Deus.

Violência

A pesquisa aponta que a política de drogas atual é a justificativa para o Estado invadir cotidiana e violentamente as favelas, violando os direitos humanos, fazendo vítimas e cerceando o direito de ir e vir. Dá-se, assim, a materialização da guerra às drogas.

"Existe, já há muito tempo, um genocídio em curso contra a população favelada no Brasil. Mesmo o Supremo Tribunal Federal (STF) proibindo operações policiais em favela durante a pandemia, vimos o que aconteceu em Jacarezinho: um verdadeiro massacre ao povo preto e pobre", relata MC Martina, coordenadora do Movimentos e moradora do Complexo do Alemão. Nesta colocação, MC Martina lembra da decisão liminar do ministro Edson Fachin, do STF, de junho de 2020, que autorizava a realização de operações policiais em favelas do Rio de Janeiro durante a pandemia somente em hipóteses absolutamente excepcionais, com justificativas, e comunicação ao Ministério Público do Rio de Janeiro. Tal decisão foi descumprida pelo governo fluminense.

O estudo denuncia o racismo como principal motor dessa guerra, uma vez que a maioria da população moradora das favelas é negra, assim como a maioria dos mortos pelas operações policiais realizadas nestes endereços. O termo genocídio é, novamente, cunhado pelo Movimentos, sendo operado, dessa vez, por um Estado fortemente armado contra uma população desarmada e vulnerável.

Números relevantes

- 83% responderam ter ouvido tiros de suas casas durante a pandemia;
- 69% disseram já ter presenciado ou tomado conhecimento de operações policiais na favela em que vivem.
- 73,8% dos entrevistados afirmaram sentir que houve um aumento de casos de violência doméstica;
- 40% dos entrevistados contaram ter presenciado algum episódio desse;
- 47% dos respondentes declararam ter sofrido algum episódio de racismo ou discriminação na vida. Desses, 93% são negros;
- 16% dos participantes informaram ter sofrido racismo durante a pandemia;
- 82% das pessoas que sofreram racismo na pandemia expressaram o desejo de experimentar novas substâncias psicoativas;
-.63% dos que sofreram racismo desenvolveram algum nível de depressão. Este dado reforça que não é possível falar sobre saúde mental sem falar sobre racismo e sem considerar os efeitos do cerceamento de direitos de vida dos moradores de favela.

As informações levantadas pela pesquisa colocam em pauta um cotidiano violento nas favelas, acentuado por atitudes dos governos federal, estadual e municipal que não só negligenciam o acesso às redes de cuidados e serviços dentro das favelas, como também são agentes ativos no plano genocida contra o povo preto e pobre.

Covid-19 e acesso à saúde

Em relação às medidas de prevenção ao novo coronavírus, o relatório revela que:
- a média de pessoas por cômodo das casas das favelas foi de 3 moradores; um catalisador para o contágio dentro das residências que dificulta o isolamento social;
- 54% declararam não ter conseguido fazer isolamento social durante a pandemia, principalmente pela necessidade de sair para trabalhar - motivo apresentado por 55% dos respondentes;
- 55% afirmaram morar com pessoas pertencentes a grupos de risco;
- 93% dos entrevistados afirmaram conhecer alguém que teve Covid-19;
- 73% souberam de alguém que morreu da doença;
- 24% das pessoas entrevistadas contam já terem sido testadas;
- Dentre aquelas que relataram ter apresentado sintomas em algum momento, apenas 45% conseguiram fazer um teste;
- 37% dos entrevistados que precisaram de atenção médica não conseguiram atendimento em equipamento público de saúde;
- 14% dos que precisaram de atendimento médico já recorreram à rede particular de saúde.

Uso de drogas durante a pandemia

A pesquisa também aborda questões relacionadas ao uso de substâncias lícitas e ilícitas. O estudo mostra que:

- 40% das pessoas afirmaram ter consumido algum tipo de remédio por conta própria;
- apenas 4% disseram ter usado ivermectina e hidroxicloroquina como tratamento precoce à Covid-19;

O relatório também aponta que a rotina difícil torna agudo o desejo de buscar refúgios a essas situações de alta insegurança. Sobre o desejo de experimentar substâncias psicoativas, o álcool foi o mais citado, aparecendo em 45% das respostas, seguido por remédios de tarja preta (19%) - como calmantes -, cigarro (18%), inalantes (16%) - como lança-perfume, lolo etc. - e maconha (12%).

Impactos da pandemia na saúde mental

Diante de uma situação de marginalização da população pobre, rotina de violência, pobreza e falta de acesso a direitos básicos, o relatório traz informações sobre uma questão invisibilizada pela sociedade: a saúde mental dos moradores das favelas.

- 76% dos respondentes declararam ter algum distúrbio do sono;
- 43,1% alegaram ter algum nível de depressão;
- 34% dos entrevistados disseram que a ansiedade é o sentimento mais presente em relação à pandemia. Os outros sentimentos elencados foram: tristeza, medo, pânico, pensamentos negativos, dores, depressão e palpitação acima da média.

Perfil socioeconômico

A pesquisa mostra que a falta de saneamento impede que as práticas orientadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS) sejam possíveis nas favelas. 63% dos entrevistados afirmaram ter ficado sem água em algum momento da pandemia, e a falta deste bem essencial faz parte da rotina de 37% dos moradores destes locais, dificultando a prática de ações preventivas à Covid-19.

Dados do relatório mostram que, no Brasil, pessoas sem escolaridade têm taxas de mortalidade três vezes maiores (71,3%) que pessoas com nível superior (22,5%). Nas favelas analisadas, apenas 16% dos participantes dizem ter ensino superior.

Com a pandemia, mais da metade dos moradores das favelas estudadas (54%) perderam o emprego. Apenas 26% dos respondentes afirmaram possuir carteira assinada. Quando a questão é racializada, 26,8% da população não branca está em situação de desemprego e 30% estão em trabalhos informais.

Dados apresentados mostram que 62% dos entrevistados solicitaram o auxílio emergencial oferecido pelo governo federal, mas somente 52% o receberam. Além disso, 50% dos moradores solicitaram doações e, dentre esses, 56% receberam ajuda. Uma parcela de 36% das pessoas ajudaram arrecadando ou fazendo doações e participando de redes de solidariedade.

Metodologia da pesquisa

A pesquisa foi realizada por integrantes do coletivo Movimentos, entre os meses de setembro e outubro de 2020, usando o método quantitativo de coleta e análise de dados dos moradores das favelas do Complexo do Alemão, do Complexo da Maré e da Cidade de Deus. Vale ressaltar que outras favelas também participaram da pesquisa, mas por se tratarem de localidades dispersas pela cidade do Rio de Janeiro, foram categorizadas como "Outras''.

As questões foram organizadas em 5 eixos temáticos: Perfil socioeconômico; Covid-19 e acesso à saúde; impactos da pandemia na saúde mental; uso de drogas durante a pandemia; violência. Com um total de 55 perguntas, a ferramenta utilizada para coleta de dados foi o Google Forms, disponibilizada por aplicativo para celular.

A proporcionalidade dos questionários por favela usou como base dados divulgados pelo IBGE (2010). Sendo assim, o Complexo da Maré contemplava 129.000 habitantes (totalizando 55,1%, necessitando a aplicação mínima de 275 de 500 questionários), o Complexo do Alemão possuía 69.148 habitantes (29,4%, com aplicação mínima de 148 de 500 questionários), e Cidade de Deus contava 38 mil habitantes (15,5%, aplicação mínima de 100 de 500 questionários). Diante disso, foram aplicados 342 questionários na Cidade de Deus, 305 no Complexo da Maré, 165 no Complexo do Alemão e 143 de outras favelas, totalizando os 955 participantes do estudo apresentado.

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