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Emicida, a gente precisa colocar fogo no Brasil

Autor: Gabi Coelho Data da postagem: 15:00 22/04/2019 Visualizacões: 380
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Emicida, a gente precisa colocar fogo no Brasil / Foto: Reprodução - Carta Capital

De fato é repugnante ver como os 80 tiros incomodaram poucas pessoas

No programa Papo de Segunda, Emicida afirmou que se a justiça brasileira e os cidadãos que vivem no país realmente se preocupassem, o Brasil estaria “pegando fogo” após a morte do músico e segurança Evaldo dos Santos Rosa, de 51 anos. Ele foi executado dentro do carro em que estava com sua esposa, seu filho de sete anos, sua enteada e seu sogro. O Exército disparou cerca de 80 tiros contra o carro. OITENTA TIROS. As Forças Armadas afirmam que o carro da família – de pessoas negras – foi confundido com o de dois criminosos que tinham confrontado os militares antes do ocorrido. Sob investigação da Justiça Militar, entre os 12 envolvidos no caso, dez foram detidos e acusados de descumprir as normas de disparos.

O músico e segurança Evaldo dos Santos Rosa

Domingo de sol, criançada descansando do período escolar, a caminho de um chá de bebê com a família, expectativa pra uma vida que está chegando neste mundo cruel, confiança em militares que estavam teoricamente em via pública pra fazer a segurança de área militar e… Acabou. Ali mesmo, em Guadalupe, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Como se a vida de todos que estavam naquele carro não tivesse o mínimo de importância. E de fato, pra eles, não tem. No combo do “eles”, eu coloco o presidente da república Jair Bolsonaro, que tratou o caso como incidente, e o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, ao dizer “Não faço juízo de valor”. Ou seja, como ele não estava no local, prefere não se posicionar – o que já é um juízo de valor – sobre o fato de que o carro com moradores do Estado do qual ele é o “gestor” foi fuzilado em ação militar.

Mas não é só na conta dos nossos governantes que está o problema. Estamos anestesiados com tantas tragédias acontecendo todos os dias no Brasil. Isso reflete em como agimos – ou melhor, não agimos – contra os 80 tiros. De nada adianta apagar incêndio e fazer ações em que os resultados terão prazo de validade. Outros cidadãos como Evaldo vão continuar sendo assassinados e criminalizados por uma política excludente. É por isso que a metáfora de colocar fogo no Brasil foi usada. Brasil tem remediado problemas, mas pouco se fala em curar e trazer soluções.

Foto: Fábio Texeira

De fato é repugnante ver como os 80 tiros incomodaram poucas pessoas. O silêncio, a legitimação e o comodismo após essa brutalidade com uma família negra ao ser confundida com criminosos é de causar revolta. E quem ampara Luciana Santos Nogueira, que ao dar entrevista pra imprensa não conseguiu conter as lágrimas e o desespero por ter perdido seu companheiro, seu melhor amigo, seu amor? Quem se importa com a vida e o psicológico desta mulher, de seu filho com apenas sete anos e, com a dor da família e dos amigos? Eles é que se cuidem, né Brasil? Porque a vida seguiu pra muitos de nós.

As mãos do Exército estão sujas de sangue por ter matado mais um inocente. Emicida deu o papo e ninguém seguiu. Não teve fogo. Pensem no quanto o coração e a mente dessa família devem estar queimando, e de tantas outras e de quantas mais… Tem sido difícil manter acesa a chama da nossa esperança quando o Atlas da Violência de 2018 indica que “a desigualdade racial no Brasil é cristalina no que se refere à violência letal e às políticas de segurança”. Enquanto o total de negros assassinados aumentou 23%, o de brancos caiu quase 7% no ano passado.

A resistência não é teórica, ela tá no cotidiano

Nos vídeos divulgados nas redes sociais, moradores da região em que o fuzilamento aconteceu estavam desesperados tentando avisar os militares que no carro haviam crianças e pessoas inocentes. No meio de tantos gritos, o catador de materiais recicláveis Luciano Macedo correu pra tirar a família de Evaldo de dentro do carro. Foi baleado. Vítima. Mais uma vítima dos 80 tiros e de uma ação truculenta das Forças Armadas. Luciano, símbolo do que chamamos de resistência, se encontrava em estado de saúde gravíssimo e, por meio de informações dadas por familiares, sua morte foi confirmada na última quinta-feira (18). Imaginem a revolta de Luciano ao ouvir tantos tiros contra aquela família. O gesto de empatia ajudou a salvar vidas, mesmo que a dele tenha sido colocada em risco.

O catador de materiais recicláveis Luciano Macedo

O povo preto, pobre, periférico e favelado representa a maioria neste país em que todos querem soluções, mas, nem sempre tão dispostos a encarar seus privilégios, mesmo sem o risco de perder um pouco que seja deles. A resistência, da qual tanto se fala nas redes sociais, é construída e feita no dia a dia, todo dia, sem descanso. Seja no elogio pra uma criança negra que vemos na rua voltando da escola com seus responsáveis, no abraço, no conforto, no estar atento e disponível para o próximo, nas cobranças com as autoridades. O fogo precisa ser colocado e isso também quer dizer que precisamos criar novas estratégias de luta. E sermos cada vez mais nós por nós, sem arrego.

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