Violência faz a favela ficar doente

Autor: Flávia Oliveira Data da postagem: 16:49 26/08/2019 Visualizacões: 99
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Violência faz a favela ficar doente / Foto: Reprodução - Drauzio Varella

Por muitas métricas, o Brasil, em geral, e o Rio de Janeiro, em particular, sabem dos efeitos da violência na população. A última edição do Atlas da Violência contabilizou 65.602 homicídios em 2017, uma epidemia que alcança, sobretudo, a juventude negra e de baixa renda. O país está no topo das estatísticas globais de agressão a mulheres, assassinatos de LGBTIs e de defensores de direitos humanos. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada calculou em 6% do Produto Interno Bruto (PIB) o custo anual da violência, expresso em perdas financeiras e despesas com sistema de saúde, seguros, segurança pública e privada, forças policiais , saúde e assistência social. Pesquisadores do Ipea, recentemente, também estimaram o número pessoas negras afetadas pela perda de entes queridos residentes no mesmo domicílio: são quatro a cinco por vítima fatal. No primeiro semestre, a ONG Redes da Maré contou dez dias úteis com escolas e unidades de saúde fechadas no conjunto de 16 favelas em razão de confrontos armados; no mesmo período, houve 27 homicídios na Maré.

O que pouco se estima são as consequências do cotidiano violento na saúde física e mental dos moradores. O assunto foi tema de debate organizado anteontem pelo Instituto Vladimir Herzog no Morro do Alemão, que batizou o complexo de favelas da Zona Norte carioca. Um grupo de mulheres das áreas de saúde, cultura e do movimento social trataram das doenças invisíveis causadas pela violência nas comunidades. No depoimento mais contundente da noite, a fisioterapeuta e psicóloga Mônica Cirne, idealizadora do Instituto Movimento e Vida, que atende gratuitamente moradores da área, contou que sete em cada dez pacientes — incluindo bebês, crianças e jovens — tratam sequelas de doenças neurológicas ou cardiovasculares provocadas pelo estresse da rotina de confrontos a bala:

“São crianças e adolescentes com doenças de idosos. As pessoas podem achar que uma clínica de fisioterapia na favela atende primordialmente feridos por armas de fogo. Mas não. Angústia, ansiedade, síndrome do pânico, depressão acabam provocando acidentes vasculares, isquemias, derrames. A favela está doente mental e emocionalmente. Isso adoece fisicamente”, resume.

Lúcia Xavier, coordenadora da ONG Criola, chamou atenção para os efeitos das más condições de vida na saúde. Há privações decorrentes das condições habitacionais precárias; da escassez de serviços públicos, como rede de água, esgoto e coleta de lixo; da má qualidade dos serviços de transporte; e da violência armada do tráfico de drogas, das milícias e da polícia. De janeiro a julho, o Estado do Rio registrou 3.566 homicídios, dos quais 1.075 foram cometidos por agentes de segurança, um recorde em 21 anos. O número de mortes decorrentes de intervenções policiais em julho também foi recorde, 194; as regiões de Bangu, na Zona Oeste, e de Irajá, na Zona Norte, tiveram os piores resultados.

São condições que afetam principalmente a população negra, maioria nas favelas e na periferia, completou: “O racismo não nos afeta somente do ponto de vista emocional. Ele determina a forma como será nossa vida, nosso modo de nascer, viver e morrer, não só por arma de fogo”. Também participaram do encontro a médica de família Júlia Rocha, a ativista Mônica Cunha, fundadora do Movimento Moleque, que reúne mães de vítimas da violência policial, e Preta Rara, rapper e influenciadora digital.

A combinação de violência e deterioração dos indicadores socioeconômicos, agravados por desemprego alto e queda da renda, deixa sequelas que extrapolam as estatísticas oficiais de assassinatos. Na forma de males físicos e transtornos mentais são neglicenciadas ou mal compreendidas por um sistema de saúde pouco eficiente e por autoridades obcecadas pelo discurso da brutalidade e indiferentes à construção do bem-estar.

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