O grito das favelas em defesa da vida e contra o genocídio da população pobre e negra

Autor: Raimundo Bonfim Data da postagem: 12:00 04/10/2019 Visualizacões: 352
Curta a nóticia:
Curta o CEERT:
O grito das favelas em defesa da vida e contra o genocídio da população pobre e negra / Foto: Reprodução - SSVP Brasil

"Condenar o policial que disparou contra Ágatha não seria justiça suficiente. Os verdadeiros responsáveis pelo assassinato não só dela, mas de centenas de outras crianças e jovens, são Jair Bolsonaro, Sérgio Moro, João Doria e Wilson Witzel. São esses governantes que têm liderado recentemente no país discursos, atos e medidas de uma política de extermínio dos mais pobres".

Na última sexta-feira, Ágatha Vitória Sales Félix, 8 anos, foi alvejada por um tiro de fuzil nas costas quando seguia dentro de uma Kombi para casa. Ela estava acompanhada pela mãe e pelo avô, no Complexo do Alemão, na Cidade Rio de Janeiro.

Condenar e prender o policial que disparou contra Ágatha não seria justiça suficiente. Os verdadeiros responsáveis pelo assassinato não só dela, mas de centenas de outras crianças e jovens, são Jair Bolsonaro, Sérgio Moro, João Doria e Wilson Witzel. São esses governantes que têm liderado recentemente no país discursos, atos e medidas de uma política de extermínio dos mais pobres, afetando principalmente a juventude e as crianças, infelizmente com aplausos e respaldo de ampla parcela da classe média.

Lembremos que João Doria afirmou que a Polícia Militar do estado de São Paulo sob seu comando é “para atirar e matar”. Wilson Witzel se junta a policiais que do alto de helicóptero disparam em comunidades indefesas. Jair Bolsonaro e Sérgio Moro patrocinam projeto de abrandamento da punição à agentes de segurança que cometam excesso em suas atividades. A chamada excludente de ilicitude, prevista na proposta em trâmite na Câmara dos Deputados, prevê que o juiz possa reduzir a pena até a metade ou deixar de aplicá-la se o excesso do agente público ocorrer por “medo, surpresa ou violenta emoção”. Trata-se de carta branca para matar. Se o projeto já estivesse em vigor, o policial autor do disparo que tirou a vida da pequena Ágatha poderia alegar que agiu mediante esses sentimentos e com isso não receber a qualquer tipo de punição, como já ocorre hoje com a maioria dos policiais envolvidos em chacinas.

Os governantes e a classe média farão de tudo para passar a ideia de que a morte de Ágatha é um “efeito colateral” do combate à criminalidade, apesar de não ter havido confronto. O Estado não combaterá o crime organizado matando crianças de 8 anos.

Witzel tem aplicado de forma planejada e premeditada em todas as favelas e demais áreas onde moram os pobres uma política de extermínio. Um verdadeiro genocida que age com com o propósito de obter vantagem eleitoral.

É avassalador o aumento da violência contra crianças e os jovens. Segundo a Unicef, 16 crianças e adolescentes brasileiros morrem por dia, em média, vítima da violência. A taxa de mortalidade por homicídio de adolescentes alcança a 35/100 mil habitantes. Um verdadeiro genocídio dos jovens pobres, negros e moradores de favelas e periferias. Não é por acaso que Ágatha era jovem, preta e morava na favela. Se fosse filha da classe média milhares sairiam às ruas de camiseta amarela ou bateriam panelas nas sacadas das mansões e apartamentos de luxo em bairros nobres, clamando por justiça.

Na condição de pai e avô posso imaginar o tamanho da dor da família da Ágatha. É dramática a situação das mais de 12 milhões de pessoas que sobrevivem nas favelas do país. O desemprego, a redução de recursos da educação, saúde, habitação, cultura, além da retirada de direitos e a precarização do trabalho, de um lado; e de outro, o estímulo da violência tem gerado um caos nos grandes centros urbanos, especialmente nas favelas e periferias das cidades.

As periferias e favelas – espaços dominados pelas milícias e pela total ausência do Estado, sem hospitais e postos de saúde, sem escolas, saneamento, transporte caro e precário, cultura e lazer – recebem do Estado balas que matam seus moradores. Morei por mais de 20 anos na favela Heliópolis, a maior de São Paulo, e até hoje acompanho muito de perto a luta por melhorias urbanas e sociais naquela comunidade. E sei o quanto uma favela dotada de equipamentos sociais, culturais e serviços públicos faz diferença na vida das pessoas, inclusive contribui para inibir a violência.

As favelas e periferias gritam: socorro. Não nos extermine! Queremos viver em paz!

Curta a nóticia:
Curta o CEERT: