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MORTE DE MENINA NEGRA MOSTRA COMO DESIGUALDADE SE IMPÕE

Autor: GIULLIANA BIANCONI Data da postagem: 14:00 26/11/2019 Visualizacões: 272
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Ketellen, de 5 anos, foi morta quando ia para a escola/Foto: Reprodução - Epoca

Falta de acesso a um ambiente seguro para estudar e racismo que permeia políticas públicas de segurança exigem que questão racial esteja no centro de debate sobre equidade

Fernando Henrique Cardoso, enquanto sociólogo, presidente e cidadão conectado com a realidade do país, reconhecia que o racismo está entranhado na nossa sociedade de passado escravocrata. Leitura óbvia ululante, mas que em 2019 ainda precisa ser defendida no país.

Em 2003, havia ambiente favorável ao início de políticas afirmativas na educação superior, e a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) saiu na frente na implementação.

Nesta semana, 16 anos depois, o IBGE trouxe estatísticas dessas que nos lembram o que realmente muda as estruturas: a política. Foi primeiramente a política de cotas raciais no ensino superior, incentivada nos anos FHC e fomentada nos governos Lula e Dilma, - e não a força de vontade de jovens negros antes de tudo ou o investimento social privado em educação - que levou pessoas pretas e pardas a serem, pela primeira vez em 2018, maioria nas universidades brasileiras (50,3%, segundo dados divulgados na semana passada).

Uma excelente notícia, mas ainda assim não se deve ter dúvida de que muitos negros ficaram pelo caminho por consequência direta das desigualdades.

Eu, mulher empregadora, já ouvi de jovens negras que não tiveram acesso à Bolsa Permanência - programa instituído pelo Ministério da Educação em 2013 para minimizar as desigualdades sociais e étnico-raciais, com auxílio financeiro a estudantes - que sem uma bolsa de estágio seria impossível seguir até a diplomação.

Em algum lugar do país vão surgir vozes para argumentar que “jovens brancos também abandonam a universidade por falta de condições”.

A naturalização das desigualdades de raça - assim com as de gênero - não serve para nada além de reproduzir os padrões da estrutura dominante.

Como as estatísticas não se encerram nelas mesmas, o dia a dia se encarrega de nos mostrar o tamanho do abismo. Nesta semana, mais uma camiseta escolar suja de sangue estampava os noticiários, com imagens tristes de um pequeno caixão sendo carregado.

Era o uniforme de escola pública da menina negra Kettellen Umbelino de Oliveira Gomes, 5 anos, morta por um tiro que levou a caminho da escola em Realengo, periferia do Rio de Janeiro. Ketellen é a sexta criança negra morta este ano no estado atingida por bala em áreas periféricas.

Entre tantas outras evidências e fatos consumados, as trajetórias negras interrompidas pela falta de acesso a um ambiente seguro para estudar e pelo racismo que permeia as políticas públicas de segurança exigem que a questão racial seja colocada ao centro em qualquer debate honesto sobre equidade.

No debate sobre questões de gênero, do qual participo ativamente, já soa como erro falar sobre “mulheres” sem situar as diferenças e privilégios entre mulheres brancas e mulheres negras. Um reflexo da articulação política das mulheres negras, que estão se organizando, como movimento que reivindica suas próprias pautas, há pouco mais de 30 anos no país.

Ao se debater a ausência e a inserção social dos negros e negras em espaços de conhecimento e de poder, seja quando falamos de ocupação de cadeiras nas universidades, nos parlamentos ou na gestão de empresas, é preciso ter em mente que não estamos abordando um problema de raça, mas sim buscando um escalada civilizatória.

Nas marquises, nos presídios, nos trabalhos precarizados, os negros, a maior parte da população brasileira, ainda são a maioria. Na próxima quarta-feira, parte do país vai celebrar o feriado da Consciência Negra.

Nunca é demais. Mas é na disputa política, e com políticas afirmativas, que o dia a dia e as estatísticas serão transformados.

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