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Atacados pela PM por serem negros, pai e filho se uniram na luta por justiça

Autor: Arthur Stabile Data da postagem: 11:27 11/08/2020 Visualizacões: 179
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Ilustração: Junião (pai do Bernardo)/Reprodução: Ponte Jornalismo

Sinvaldo e o filho Nathan conseguiram na Justiça a condenação do Estado de SP por abordagem truculenta ocorrida em 2010, mas ainda aguardam indenização

Imagine você com seu filho a caminho de um evento muito esperado, algo com que o garoto sonhou por dias. No meio do caminho, vocês são abordados de forma truculenta pela Polícia Militar. Armas apontadas. Ameaças. O terror. O episódio tinha tudo para terminar mal, mas fortaleceu o vínculo do advogado Sinvaldo José Firmino, 57 anos, e seu filho, Nathan Palmares, 23. Um vínculo que levou a uma vitória histórica na Justiça contra a violência policial racista.

A abordagem violenta atingiu pai e filho em 5 de maio de 2010, na Avenida Pacaembu, zona oeste da cidade de São Paulo, a caminho do Estádio do Pacaembu. Ambos iriam para o jogo de futebol entre Corinthians e Flamengo, pela Copa Libertadores da América. Na época, Nathan tinha 13 anos.

Foram abordados por três policiais militares. Um deles apontou uma arma para o rosto de Nathan. “Meu pai foi intervir, diante do flagrante absurdo que ali presenciava, e passou a ser tratado da mesma forma, foi grudado na parede e foi revistado de forma truculenta”, relembra. Depois disso, a vontade do advogado era ir para casa, mas o rapaz insistiu em ver o jogo. “Estava na adrenalina, pela idade, não tinha dimensão que poderia ter acabado em tragédia”, conta.

Para Nathan, o trauma, na forma de estresse pós-traumático, existe até hoje. O jovem ainda passa por tratamento psicológico. No entanto, contar com o pai seu lado fez a diferença. “Sou muito grato por ter essa relação com meu pai. Por mais duro que seja isso que passamos juntos, mostra que nossa relação não é superficial e sim cimentada no mundo real, o que a torna mais forte”, conta.

Sinvaldo não mede palavras para definir a relação. Até tem dificuldade de escolher a melhor. “O Nathan falou em sedimentada. É uma boa palavra, a que talvez melhor define. Tudo isso fez com que ficássemos mais unidos. A dor dele foi a minha dor e a minha, a dele. Como pai e filho, com aquele episódio aprendemos muito”, diz.

Em 2018, o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, em uma decisão de segunda instância, condenou a Fazenda do Estado de São Paulo a pagar R$ 15 mil por danos morais a Nathan. A relatora da decisão, a desembargadora Teresa Ramos Marques, reconheceu no texto o papel do racismo na violência policial, dizendo que “…é importante lembrar que o autor é negro e a Polícia Militar possui um histórico negativo em relação à comunidade negra”.

Dois anos após a decisão, Nathan ainda não recebeu a indenização prometida. “Quando se trata de processos contra o Estado, essa demora existe”, reconhece Sinvaldo.

Seu filho sabe hoje ter vivido uma experiência que poderia ter resultado em morte. Precisou de tempo para entender. “Eu era muito jovem, então no início era tudo meio confuso. A tendência dessas abordagens é terminar em morte, e com o tempo fui vendo que isso não era algo restrito a São Paulo ou mesmo ao Brasil”, lamenta Nathan.

Naquela época, seu sonho era virar jogador de futebol. Treinava em uma escolinha do próprio Corinthians. O primeiro reflexo do trauma deixado pela abordagem atacou este sonho: ele deixou de lado o futebol. Não queria mais treinar. O medo vinha ao simplesmente escutar o barulho de sirenes e “qualquer referência à polícia”.

Sinvaldo estava a seu lado para superar. Foi ele quem mostrou, desde cedo, que não se tratava de um caso isolado ou algo contra Nathan. “O Nathan teve estresse pós-traumático, mas a vida estava tomando um rumo. Ele tomou uma maturidade… Antecipou seu crescimento por causa da abordagem discriminatória”, explica.

O rapaz conta, com orgulho, a reação do pai de lutar até conseguir justiça. Para ele, o recado é de que é importante existir pessoas lutando para que ações como aquelas não fossem toleradas. “Houve um aprendizado muito importante, ele não fugiu da luta. Ali começou uma nova visão de mundo. Passaram dez anos e violência policial aumenta cada vez que passa, está aí, presente na cidade de São Paulo, periferia, com adolescentes e jovens pretos”, denuncia o advogado.

Os dois têm uma paixão em comum daqueles tempos viva até hoje: o Corinthians. É quando dividem um tempo só deles. Em 2 de fevereiro, foram ao Itaquerão ver o clássico contra o Santos, vencido por 2 a 0. Era aniversário de Sinvaldo e Nathan o presenteou com os ingressos.

“O Corinthians nos une muito até hoje. É uma união muito forte, desde sempre. O Nathan largou o sonho do futebol, mas mirou o estudo. Hoje estuda ciência da computação. E não deixou de sonhar. É uma relação muito forte a nossa”, diz Sinvaldo. Com orgulho na voz.

Outro lado

Procurada pela Ponte, o Núcleo de Conteúdo e Políticas Públicas, da assessoria da Secretaria da Segurança Pública, do governo João Doria (PSDB), informou a assessoria não se pronuncia sobre decisões judiciais, a não ser um dos envolvidos no processo tenha recorrido da decisão.

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