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Demora em tirar o filho do carro leva homem negro a receber PM em casa

Autor: Deise Machado Data da postagem: 10:00 29/09/2021 Visualizacões: 258
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Osmar de Camargo, 41, em frente de casa, em Sorocaba (SP)/Reprodução: UOL

Um par de olhos anônimos fez Osmar de Camargo viver um domingo atípico, em 12 de setembro. Fazia um tempo quente e seco em Sorocaba (SP), cidade de quase 700 mil habitantes, onde Osmar mora.

Passava das 11h quando, usando chinelos, bermuda e camiseta, resolvera levar o filho Leonardo até um parque da cidade. Foram de carro. Três horas mais tarde, já de volta, estacionou o veículo em frente à casa vizinha (a proprietária viajava), embaixo da sombra de uma árvore. Saiu do automóvel, deu a volta até a porta do passageiro e começou o processo — misto de distração e convencimento — para que Leonardo, um pré-adolescente de 11 anos com autismo, deixasse o carro e entrasse em casa. Nesse dia o menino cedeu rápido: cinco minutos e já estava lá dentro, com a companheira de Osmar.

Em casa, o professor de história e geografia, que trabalha hoje como produtor cultural, lembrou de cumprir um ritual que, ultimamente, passou a ser diário: fechar o registro de água, por causa de um vazamento ainda em manutenção. O abrigo do registro fica bem na entrada, atrás dos muros e portões de aço altos, coroados por concertinas.

Enquanto fechava o registro, ouviu vozes e uma pancada forte no portão maior, como se alguém forçasse a entrada. Assustou-se. Subiu no abrigo do registro sobre o muro, resguardando-se dos arames contorcidos. Quatro policiais militares estavam do lado de lá, todos de armas em punho. Três bem próximos uns dos outros e um quarto mais abaixo, na calçada. As sirenes acesas indicavam três viaturas — duas do lado da rua onde Osmar mora, outra do lado contrário.

Osmar deu meia-volta em direção ao interior da casa para pegar a chave e abrir o portão menor. Foi quando ouviu da calçada: "Como estão as coisas aí?" Retrucou: "Aqui, tudo ótimo. E aí?" Os PMs repetiram a pergunta (aliás, mais de uma vez): "Mas está tudo bem mesmo?" E Osmar: "Tudo ótimo, sim. Mas por quê? O que aconteceu?" O policial: "É que recebemos uma denúncia". Osmar: "Nossa! Como assim? Aqui tá tudo ótimo. Entrem para averiguar. Só que, antes de entrar, abaixem as armas, por favor, porque tenho uma criança com autismo. Também encostem o portão porque, se deixar aberto, o menino pode sair."

A casa onde Osmar mora com a família, embora localizada em um bairro que começou como um conjunto habitacional e hoje mistura residências de classe média e média-alta, é confortável, mas simples: 70 m² em um terreno de 10m x 25m. Tem sala, três quartos, cozinha, dois banheiros. O quintal de piso cerâmico é grande. Há alguns vasos de plantas espalhados aqui e ali. A sala fica logo na entrada da residência. Chamam atenção uma televisão de tela bem grande na parede e uma Bíblia (da companheira de Osmar, a pedagoga e psicóloga Luciane, que trabalha com educação especial) aberta na estante.

Osmar diz que é "religioso nas horas vagas", mas, por via das dúvidas, é adepto fiel do sincretismo: da umbanda ao catolicismo, passando pelo protestantismo, vale quase tudo.

O elemento surpresa na sala é a tela de uma velha TV, no alto da escrivaninha, onde se registram imagens do entorno e de dentro da residência. As câmeras espalhadas foram ideia de Luciane. Osmar achou paranoia, mas vá lá. É que, há três anos, um ladrão desastrado pulou o muro dos fundos da casa e, do mesmo jeito que entrou, saiu, sem levar nada. Ou melhor, não levou, mas deixou. Foram abandonados um par de óculos escuros e um velho boné. Luciane exigiu as câmeras que, no domingo, prestaram um grande serviço. Excessos policiais teriam sido documentados — o que não foi o caso. Ninguém se feriu, ninguém morreu, ninguém foi ostensivamente acusado e acuado. O que houve foi uma denúncia anônima sobre um ladrão e um refém, numa casa habitada por um homem negro, sua companheira e seu filho autista.

O professor não quis confronto. Convidou os policiais a entrar.

Bandido, refém e mocinho

Os policiais — um deles armado com um fuzil — entraram no quintal da casa ainda com armas em punho. O portão permaneceu aberto. Enquanto o anfitrião apresentava aos visitantes a garagem e o quintal, entrando em seguida com três deles na casa, um novo susto: como o pai havia previsto, Leonardo veio correndo de dentro da casa e atirou-se para a rua. As câmeras captaram a hora em que o menino saiu em disparada, parou na calçada e depois sobre a lombada, até atravessar para o outro lado da rua na correria, sem olhar para os lados. Tudo sob o olhar despreocupado dos policiais no portão e do lado de fora.

Elas, as câmeras, mostram também o momento em que o pai percebe a ausência do filho e sai correndo para buscá-lo. "Ele podia ter sido atropelado", resume. Foi nessa hora que pôde contar quantos eram os policiais dentro e fora das três viaturas: doze.

Já de volta à casa, Osmar tratou de apresentar seus documentos. Paralelamente, ouviu uma voz no rádio do Copom (Centro de Operações dos Policiais Militares) insistir recorrentemente para que os PMs no local verificassem se não havia mais ninguém no local e se estavam certos de zero anormalidade ali.

A tal denúncia teria sido feita por um vizinho, explicou um dos policiais. Osmar contesta: mora no local há mais de 13 anos, conhece a vizinhança e tem bom relacionamento com todos.

Quando os policiais foram embora (do momento em que chegaram à porta da casa até a saída da residência, passaram-se dez minutos), Osmar e a família se perguntavam: nada na casa, na frente ou nas proximidades, naquela tarde, sugeria um roubo com refém. De onde teria saído a denúncia? Baseada em quê? E a reflexão de sempre: haveria denúncia anônima, fosse Osmar um homem branco?

Essas e outras dúvidas foram encaminhadas à assessoria de comunicação da Polícia Militar pelo TAB, junto com um pedido de entrevista. O órgão não atendeu aos pedidos da reportagem até a publicação deste texto. A PM não quis confirmar, por exemplo, o número de policiais e viaturas enviados à casa de Osmar de Camargo. Mas encaminhou a seguinte nota.

"A Polícia Militar esclarece que no domingo, 12, o Copom recebeu um chamado no 190, informando sobre um possível roubo com refém. Diante da gravidade do caso, os policiais foram rapidamente ao local para checar a denúncia. No local, foram informados pelo proprietário do imóvel de que não havia roubo. Os policiais militares esclareceram ao cidadão sobre o chamado recebido e sobre o protocolo sobre o caso. Não houve qualquer irregularidade na atuação dos policiais militares."

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