Mãos ao alto!

Autor: Mario Rogerio Data da postagem: 10:30 10/11/2021 Visualizacões: 336
Curta a nóticia:
Curta o CEERT:
Jacarezinho, a favela mais negra do estado do Rio de Janeiro, um verdadeiro quilombo urbano, se transformou no palco de um dos maiores massacres em 6 de maio de 2021/Imagem: DepositPhotos

Jacarezinho, a favela mais negra do estado do Rio de Janeiro, um verdadeiro quilombo urbano, se transformou no palco de um dos maiores massacres em 6 de maio de 2021, em uma operação realizada durante a pandemia que descumpriu as determinações do Supremo Tribunal Federal (STF).

A operação que visava cumprir 21 mandados de prisão, terminou realizando somente três e deixando um saldo de 28 civis mortos. Pelo relato de moradores, alguns foram executados. Lamentavelmente o que se se ouviu dos chefes do executivo foi “eram todos bandidos”, uma alegação sem provas que logo foi derrubada pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).

Operações como a do Jacarezinho, no Rio de Janeiro, e Paraisópolis, em São Paulo, retratam a violência contra a juventude de 15 a 29 anos e apontam que este grupo é o mais vulnerável. Eles são 51,3% de todas as vítimas de homicídios no Brasil durante 2019, ou seja, das 45.503 mortes, 23.327 eram jovens desta faixa etária que tiveram suas vidas retiradas prematuramente. São 64 jovens assassinados por dia no país.

A brutalidade na abordagem policial de jovens negros se repete em todas as cidades em especial nas comunidades mais pobres, o comportamento tem se tornado uma rotina dentro das corporações. Para as pessoas negras, a impressão que fica é a existência de um código interno orientando os policiais a abordar com truculência preferencialmente jovens negros.

Lembro que em uma entrevista no UOL o comandante da Rota, tropa de elite da PM de São Paulo, afirmou que a abordagem policial nos Jardins, bairro nobre da capital paulista, tem de ser diferente da periferia, porque as pessoas são diferentes. São pessoas diferentes sim. Nos jardins moram somente pessoas brancas e ricas, porém não mais honestas que os moradores das favelas e periferias, pessoas pobres e, em sua maioria, negras.

Seguindo este comportamento das nossas polícias, em 2020 houve uma ampliação da letalidade policial com impacto direto nas vidas de jovens negros que passam pela maioria das abordagens policiais. Os dados retratam o resultado destas abordagens - dentre as 6.416 pessoas mortas em intervenções policiais 78,9% eram negras, 76,2% tinham de 12 a 29 anos e 98,4% eram do sexo masculino.

Com as políticas de liberação de porte e posse de armas de fogo e munição patrocinadas pelo governo federal a partir de 2019, os homicídios se tornam um ponto de atenção. Também houve aumento da violência no campo. Segundo os dados de 2019 o número foi o maior dos últimos 10 anos. E as principais vítimas foram indígenas, sem-terra, assentados e lideranças agrárias.

Considerando as séries históricas e os números do SIM (Sistema de Informações por Mortalidade) é possível observar o impacto da violência nas famílias negras. A maioria das pessoas brancas dirá que nunca foi abordada pela polícia ou terá dificuldade de lembrar quando aconteceu. Os jovens negros, por sua vez, sofrem com a dificuldade de esquecer as inúmeras abordagens truculentas que vivenciam no dia a dia.

Se faz necessário, e com urgência, repensar a abordagem policial no Brasil. Precisamos lembrar que somos maioria da população e ainda assim nosso cotidiano nos reserva viver discriminados, estereotipados e perseguidos nas operações policiais com um único objetivo de exterminar-nos. Constantemente tenho me perguntado - quando iremos reverter esta realidade?

 

Curta a nóticia:
Curta o CEERT: