Viravida: atendimentos a jovens explorados transforma vida de profissionais

Autor: Redação (Adital) Data da postagem: 12:00 27/01/2016 Visualizacões: 673
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O projeto Viravida, promovido pelo Serviço Social da Indústria (Sesi), vem ajudando a recuperar jovens entre 16 e 21 anos que sofreram violência sexual.

Durante ações do projeto, esses jovens passam por acompanhamentos de profissionais, formados por coordenador/a operacional, psicólogo/a, assistente social, pedagogo/a, agente de mercado e assistente administrativo. Todos com experiência no atendimento ao público-alvo do projeto e com conhecimento sobre o Plano Nacional de Enfrentamento da Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes.

Esses profissionais acompanham de perto o cotidiano dos jovens e as transformações que o Viravida vem fazendo na vida de cada um deles. O livro "Viravida: histórias de vidas transformadas” reúne depoimentos de alguns desses profissionais que contribuem para concretizar essas transformações sociais.

A pedagoga da equipe do Viravida de Londrina [Estado do Paraná], Karla Corsini Pilla, de 28 anos, conta que, quando era criança, não entendia as razões que levavam as crianças e os adolescentes a viverem nas ruas. Ela achava que eles estavam lá por vontade própria. Quando começou a trabalhar no Viravida, sua forma como vê essa realidade mudou completamente. Mudou também sua visão de mundo.

Karla Corsini, 28 anos, pedagoga da equipe do Viravida de Londrina.

"Outro dia, uma aluna me contou que tinha apanhado do ex-namorado, eu disse a ela que, se fosse eu, teria denunciado à polícia, só que ela respondeu: "você fala isso porque não mora onde eu moro, se tivesse denunciado, ele teria me matado e colocado fogo na minha casa; se eu fosse à delegacia, a polícia ia aparecer no meu bairro e outras pessoas poderiam me matar, porque ia atrapalhar o negócio deles” relata a pedagoga.

Karla lembra que, no inicio do trabalho, ela ficava chocada com a maneira como os jovens falavam, como se vestiam, como se comportavam. Hoje, ela entende que eles só querem chamar atenção, precisam que alguém os ouça, querem desabafar. "Devemos estar sempre prontos para ouvi-los, se quisermos ajudá-los, temos que estar atentos ao menor sinal de estresse e atuar de forma preventiva, para evitar que o problema de um aluno transborde para o restante da classe” explica.

"Esses jovens não alimentam a ilusão de que o Viravida vai resolver todos os seus problemas, por isso, incentivamos seu protagonismo, para que sejam autônomos e compreendam a importância de se sentirem responsáveis na vida e no trabalho; nós que trabalhamos com esses jovens, sem referências adultas positivas na família, devemos estar preparados para dar a eles muito mais do que conhecimentos técnicos profissionais; é por causa disso que eu, todas as manhãs, ao acordar, peço proteção e sabedoria a Deus, para enfrentar os problemas que, certamente, vão aparecer naquele dia. Acho que o Viravida não muda só a vida deles/as, mas a dos/as técnicos/as, professores/as e de todo mundo que se envolve com eles” assinala Karla.

A educadora social do Creas [Centro de Referência Especializado de Assistência Social] em Salvador [Estado da Bahia], Isabel Nascimento Araújo, de 58 anos, trabalha nas ruas, identificando crianças e jovens em situação de risco. Primeiro, ela procura ganhar a confiança deles, depois, os encaminha pra projetos sociais. Começou sua trajetória profissional em salas de aula, foi conselheira tutelar e, hoje, trabalha no Creas, na Secretaria de Ação Social de Salvador. Isabel fica em contato direto com crianças e jovens nas ruas e também com suas famílias. Nesse trabalho, ela detecta os casos que, uma vez analisados pela equipe do Creas, são encaminhados ao projeto Viravida.

Isabel Nascimento, 58 anos, educadora social do Creas, em Salvador.

"Nas ruas, os jovens não têm noção de que estão sendo explorados, eles mudam aos poucos; quando começam a conviverem com outra realidade, aí se percebem cidadãos com direitos; muitos dizem: ‘puxa, não sabia que estava destruindo a minha vida!’; as meninas dizem: ‘fico com raiva de mim mesma porque me deitava com aqueles homens tão nojentos, que estavam só se aproveitando de mim, levando embora o meu futuro!’”, conta a educadora.

Isabel lembra que a primeira turma encaminhada ao Viravida foi um grupo difícil porque era um projeto-piloto e não saberia se ia dar certo, mas o resultado foi muito bom! "Antes do Viravida, não existia nenhum projeto voltado para adolescentes e jovens em situação de exploração sexual, estruturado na dimensão que é o Viravida, que trouxesse oportunidades de mudança de vida não só para os jovens, mas também para suas famílias” observa.

Denise Nobre Pontes Diniz de 39 anos, é psicóloga e coordenadora operacional do Viravida de Belém [Estado do Pará]. Quando foi selecionada para integrar a equipe da primeira turma do projeto Viravida, no Sesi de Belém, teve a chance de colocar em prática tudo o que tinha aprendido na Faculdade de Psicologia, no hospital e na clínica em que trabalhou.

Denise Nobre, 39 anos, psicóloga e coordenadora operacional do Viravida de Belém.

Ela explica que, no começo, foi difícil ganhar a confiança dos jovens, por serem tão arredios e agressivos; para ela, este foi seu primeiro desafio. "Não consegui entrar na Faculdade de Medicina, mas aqueles meninos e meninas me fizeram compreender que eu havia encontrado a minha verdadeira vocação: a Psicologia, e a minha grande paixão: o Viravida, um trabalho que me ensinou a deixar de lado os preconceitos e a ver a vida com outros olhos, trabalho que também me auxilia no meu papel de mãe de três filhos: de 15, 11 e sete anos de idade” ressalta Denise.

Com o Viravida, a psicóloga mudou seus conceitos, sua visão. Para ela, foi a ressignificação de tudo o que achava sobre família e exploração sexual. Ela aprendeu a ser mais flexível, a valorizar sua própria vida.

"Sinto, nesse trabalho, a oportunidade para o aperfeiçoamento de conhecimentos, não no campo teórico, mas na prática, no corriqueiro, no cotidiano, é olhar no olho do outro e entendê-lo, ao conhecer um desses jovens, a gente, em pouco tempo, só pelo olhar, passa a conhecer todos, quando eu percebo que alguma coisa não está bem com um deles, eu pergunto: ‘fulano, o que tu tens?’. E eles sempre surpresos respondem: ‘credo, tu és bruxa, cadê tua bola de cristal?’; não, não é bola de cristal, é que a gente tá direto com eles e percebe quando o olhar fica diferente” explica a Denise.




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